Artigos de opinião, Japão

ARTIGO DE OPINIÃO | Kojiki: A criação divina do Japão e a legitimação imperial

Maurício Luiz Borges Ramos Dias – mauriciolbrdias@gmail.com
Rayane Sátiro – satirorayane9@gmail.com
Suéllen Gentil – suellen.gentil@gmail.com
Revisão especializada:
Maria Oliveira – mary.oliveirasilvan@gmail.com
Larissa Redditt – lariredditt@gmail.com

Compilados, respectivamente, em 712 e 720, o Kojiki (Relatos de Fatos Antigos) e o Nihon Shoki (Crônicas do Japão) são obras preciosas que nos permitem compreender a formação dos antigos credos cosmogônicos1 japoneses, cujos vestígios estão evidentes até hoje na vida cotidiana da Terra do Sol Nascente. Ambos confeccionados em meio ao processo de unificação política e estratificação social do Japão que se concluíram em 710, o Nihon Shoki foi escrito em chinês e apresenta uma narrativa detalhada do dia a dia, enquanto o Kojiki foi redigido no idioma japonês e tinha como atribuição proporcionar a congregação histórica e ideológica do Estado (MIETTO, 1995; ANTONI, 2016). Em um contexto doméstico no qual o imperador Tenmu (672-686) subiu ao trono após destituir o imperador Kobun (672) na Guerra Jinshin, essas obras foram um esforço para a elaboração de uma narrativa oficial compartilhada nacionalmente e capaz de legitimar o processo de hegemonização do poder político centralizado sob as mãos da instituição imperial. 

Nessa perspectiva, sendo finalizado em 712 sob ordenação da imperatriz Genmei (707-715), as possíveis fontes que teriam permitido o desenvolvimento do Kojiki foram o registro genealógico da família real, coletânea de canções, mitos e lendas, tradições orais, manuscritos estrangeiros e a própria corte que seria beneficiada pelo conteúdo cosmogônico dessa obra (MIETTO, 1993). Dessa maneira, três capítulos foram produzidos, sendo o segundo e o terceiro concentrados em registros sobre os reinados e as sucessões imperiais, ao passo que o primeiro, principal objeto de estudo deste artigo, esteve envolto pelo arcabouço cosmogônico que buscava explicar  a origem divina do universo e do arquipélago japonês, bem como a origem mística do imperador Jinmu, descendente de Amaterasu, a deidade solar. Como resultado, o Kojiki representou o culto a múltiplas deidades (kami) (TANAKA, 2017) e possibilitou a elevação da base espiritual nipônica ao redor da nação a partir dos primórdios cosmogônicos considerados como a representação dos fatos históricos (ANTONI, 2016).

 Sendo assim, começa-se esse artigo de opinião apresentando o surgimento dos Deuses e o processo de criação divina do Japão narrados ao longo do primeiro capítulo do Kojiki. Em seguida, a partir da separação de Izanami e Izanagi, demonstra-se como se deu o nascimento de Amaterasu e qual a sua relação com o primeiro imperador do Japão, almejando, nas considerações finais, constatar a perpetuação de crenças originadas do Kojiki na contemporaneidade japonesa. 

                        Izanami e Izanagi criando o Japão. Fonte: World History Encyclopedia.

Surgimentos dos Deuses e do Japão no Kojiki

Como explica Croatto: “O mito é o relato de um acontecimento originário, no qual os Deuses agem e cuja finalidade é dar sentido a uma realidade significativa” (2010, p. 209 apud LIRA, 2015, p. 27). Portanto, pode-se afirmar que no Kojiki temos uma narrativa cosmogônica que fala da origem do universo a partir do caos e o surgimento dos Deuses e suas primeiras ações. O Kojiki descreveu que os Deuses primordiais eram Amenominakanushi2, Takamimusubi3, Kamimusubi4, Umashiashikabihikoji5 e Amenotokotachi6: eles são divindades à parte, numa posição ainda mais elevada que os seguintes (MIETTO, 1995). 

Após eles, surgiram mais sete gerações de Deuses e na sétima originaram-se Izanagi no Mikoto e Izanami no Mikoto, também chamados apenas de Izanagi e Izanami. Segundo Mietto, em ambos os nomes “iza tem o mesmo significado que izanau (convidar, conduzir), na é uma particula que […] expressa o genitivo, ki é um sufixo que indica ser do sexo masculino e mi é um sufixo que indica ser do sexo feminino” (MIETTO, 1995, p. 72). Diversos acadêmicos discordam se Izanagi e Izanami são irmãos ou não. Enquanto alguns afirmam que a relação deles é de Deuses casados, outros argumentam que a palavra utilizada para referir-se a Izanami pode ser interpretada como irmã e também como esposa, sendo esta ambiguidade um dos argumentos utilizados pelos que afirmam que eles são irmãos, segundo Murakami (1988, p. 456).

Ainda assim, os cinco deuses citados anteriormente incumbem Izanagi e Izanami na função de concluir a criação do mundo. Dessa maneira, eles receberam o bastão celeste que é cravejado de pedras preciosas e, enquanto estavam em pé sobre uma ponte flutuante celeste, Izanagi e Izanami tocaram a superfície da água com o bastão, num movimento circular. Assim, misturaram a água do oceano, e, quando levantaram o artefato, as gotas que dele caíram de volta à água se acumularam e formaram uma ilha, que passaria a se chamar Onokoroshima, mesmo local onde Izanagi sugere que os dois se unam em matrimônio. 

Da união desse casal surgiram várias ilhas e essa seria, portanto, a explicação da origem do arquipélago japonês. Depois de gerar as ilhas, o casal passou a conceber novos Deuses. Foram diversos descendentes, porém, ao dar a luz à divindade Hinoyagihayao, cujo nome significa literalmente “o Deus intrépido e veloz da força destruidora do fogo” (MIETTO, 1995, p. 76), Izanami adoeceu, queimada pelo poder de seu próprio filho. De seus fluidos surgiram ainda novos Deuses, todavia, ela morreu e desceu à terra de Yomi, que seria o outro mundo para o qual todos vão após a morte, inclusive os Deuses. Izanagi no Mikoto então pranteou e lamentou a morte de sua esposa e a enterrou, e logo após decapitou seu filho, o Deus do fogo, culpando-o pela morte de sua mulher, e do sangue e corpo do Deus morto nasceram novos Deuses.

Incidente em Yomi, surgimento de Amaterasu e o primeiro imperador do Japão

Na ânsia de rever sua esposa, Izanagi desceu à terra de Yomi e suplicou para que Izanami  retornasse. A Deusa, que já havia comido da terra daquele lugar, respondeu que consultaria os Deuses locais para ver se podia atender ao pedido do marido, enfatizando que ele não poderia observá-la enquanto isso. No entanto, Izanagi descumpriu sua ordem e, ao visualizar o cadáver de sua esposa em decomposição, fugiu assustado. Após uma longa perseguição, envolvendo as Yomotsushikome7 e a própria Izanami, ele conseguiu escapar da terra dos mortos.

Já em Takamagahara8, Izanagi decidiu que precisava se purificar e iniciou esse ritual nas águas do rio Tachibana (MIETTO, 1995, p. 71). Desse evento, nasceram diversas divindades, incluindo a Deusa Amaterasuômikami9, mais conhecida como Amaterasu, que teria nascido após o Deus lavar seu olho esquerdo. Izanagi a considerou uma das três crianças nobres que conseguiu gerar no processo de purificação e a designou para governar Takamagahara, presenteando-a com o colar de contas de seu pescoço. 

Diversos acontecimentos importantes advieram do nascimento da Deusa do Sol, como o célebre conflito entre ela e o Deus Susanoo10, seu irmão mais novo, no qual Amaterasu, aborrecida com as maldades do irmão, se enclausurou em uma gruta, condenando o mundo à escuridão. Nessa gruta, foram criados o Espelho Kagami e a joia Magatama, que junto com a Espada Kusanagi Tsurugi11 são símbolos imperiais existentes até os dias atuais. Outro importante evento foi a reivindicação de Amaterasu do mundo terrestre12, até então comandado por Okuninushi13. Estando esse mundo desregrado, a Deusa enviou, para governar e organizar suas terras, seu neto, Ninigi, para o qual entrega as jóias imperiais. O filho de Ninigi se tornaria, sob o nome de Jimmu, o primeiro imperador do Japão em 660 a.C., e, por ser descendente direto da Deusa do Sol, a linhagem imperial só poderia vir dessa mesma família, o que justificaria a linhagem única, sagrada e incontestável da Família Imperial japonesa, bem como legitimaria a soberania do imperador.

Imperador Jimmu. Fonte: New World Encyclopedia.


Através de todo o contexto histórico e sócio-cultural do Japão antigo e da narrativa presente no Kojiki percebeu-se a ligação da obra com os interesses políticos dos governantes da época, dada a necessidade de uma justificativa para que a população fosse submetida a um único governante sempre vindo de uma mesma linhagem. Ora, se a família imperial descende da própria Deusa do Sol, Amaterasu Oomikami, por que haveriam os outros de questionar a vontade da divindade suprema?

A manutenção desse modo de pensar entre a sociedade japonesa pode ser vista ainda nos dias de hoje, pois diz-se que a família imperial permanece a mesma desde a unificação do Japão em 710 no início do período Nara. Ademais, é interessante notar que mesmo os arqueólogos japoneses interpretaram seus achados e estudos de acordo com o conteúdo descrito no Kojiki e no Nihon Shoki (HENSHALL, 2008), demonstrando que a partir da cosmogonia, a realidade material era interpretada tal como, por exemplo, a criação do Japão. Em uma reflexão sobre a manutenção do teor cosmogônico na contemporaneidade nipônica, os três tesouros sagrados enviados por Amaterasu através de seu neto são de extrema relevância por serem uma ligação do passado com o presente e serem símbolos de representação do poder imperial visto que no japão não há coroas. Por esse motivo, esses permanecem preservados em santuários onde são reverenciados, como é o caso do espelho das três relíquias no grande santuário de Ise, embora eles normalmente sejam mantidos em locais reservados aos sacerdotes e ao imperador. Sendo assim, para além do século VIII, o conteúdo encontrado em Kojiki atravessou e continua presente na história e na cultura do Japão.  


1-  Conforme Correia (2018), a cosmogonia é um conceito que busca explicar o surgimento do cosmo em uma noção de origem, “gênese”, estando presente em variadas narrativas míticas que, a partir de suas matrizes culturais, explicam a criação do universo.

2-  Lit” “divindade suprema que do centro do céu preside o universo”. Trata-se de uma divindade conceituada como ponto de partida para as divindades posteriores. (MIETTO, 1995, p. 71)

3-  Lit” “a suprema divindade da força criadora” (MIETTO, 1995, p. 71).

4-  Lit” “a suprema divindade criadora”. (MIETTO, 1995, p. 71).

5-  Lit” “o deus supremo dos brotos de junco”. (MIETTO, 1995, p. 71).

6-  Lit” a “divindade de permanência eterna nos céus”. (MIETTO, 1995, p. 71).

7-  Lit. “mulheres horrendas de Yomi”. Segundo Mietto (1995, p. 79), é uma provável referência ao estado de morte.

8-  Lit. “alta campina celeste”, é o mundo celeste onde as divindades vivem. (MIETTO, 1995,  p. 71).

9-  Lit” “a divindade suprema que resplandece no alto dos céus” (MIETTO, 1995, p.82), também conhecida como Deusa do Sol, umas das figuras mais importantes da cultura japonesa.

10-  Hayasusanoono Mikoto, lit. “o deus intrépido e veloz que traz a destruição” também conhecido como “Deus do Trovão” ou “Deus das Tempestades”.

11-  Entregue à Amaterasu pelo Deus Susanoo como pedido de perdão por suas maldades.

12-  Ao passo que o mundo celeste se referia ao local habitado pelos seres divinos, o mundo terrestre pode ser interpretado como sendo o Japão.

13-  Lit;”o grande senhor das terras” (MIETTO, 1995, p.90).


Referências Bibliográficas

ANTONI, Klaus. Kokutai – Political Shintô from Early-Modern to Contemporary Japan. Tübingen: Eberhard Karls University Tübingen. 2016. 

CORREIA, Carlos João. Cosmogonia. Estudo de Mitologia Comparada. Philosophica – International Journal for the History of Philosophy, Lisboa, 53, p.11-19, 2018.

HENSHALL, Kenneth. História do Japão. Lisboa: Edições 70, 2008. Tradução de Victor Silva.


LIRA, David. O Mito de Θεύϑ [Theuth]: Estudos Mitopoiéticos do Diálogo Platônico de Phædrus 274c-275b. Eutomia, Recife, v. 1, n. 16, p. 22-45, dez. 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/EUTOMIA/article/view/2049. Acesso em: 5 set. 2021.

MIETTO, Luis Fábio M. Rogado. ESTUDOS PRELIMINARES ACERCA DO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DA OBRA KOJIKI. Estudos Japoneses, São Paulo, n. 13, p. 99-109, 1993. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ej/article/view/142631. Acesso em: 06 ago. 2021.

MIETTO, Luis Fábio M. Rogado. O Kojiki e o universo mitológico japonês da antigüidade. Estudos Japoneses, São Paulo, n. 15, p. 67-93, 1995. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ej/article/view/142715. Acesso em: 27 ago. 2021.

MURAKAMI, Fuminobu. Incest and Rebirth in Kojiki. Monumenta Nipponica, Tóquio, v. 43, n. 4, p. 455-463, 1988.

TANAKA, Michiko. ÉPOCA MODERNA TEMPRANA. In: TANAKA, Michiko (Org.). Historia Mínima de Japón. 1ed., Cidade do México: El Colegio de México, 2017, p. 123- 180.

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