{"id":8885,"date":"2025-05-05T10:16:18","date_gmt":"2025-05-05T13:16:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=8885"},"modified":"2025-05-05T10:48:28","modified_gmt":"2025-05-05T13:48:28","slug":"we-do-not-part-o-olhar-de-han-kang-para-um-passado-que-nao-pode-ser-esquecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=8885","title":{"rendered":"\u201cWe Do Not Part\u201d: o olhar de Han Kang para um passado que n\u00e3o pode ser esquecido"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201c<\/strong><strong>We<\/strong><strong> Do <\/strong><strong>Not<\/strong><strong> Part\u201d: o olhar de Han Kang para um passado que n\u00e3o pode ser esquecido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>por Clara Menezes<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;imagem: Jessica Gow\/TT\/Alamy<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que muitas mem\u00f3rias do passado tentem ser apagadas por governos autorit\u00e1rios, as marcas de viol\u00eancias quase inenarr\u00e1veis atravessam o tempo e invadem indiv\u00edduos de diferentes gera\u00e7\u00f5es. Esses traumas hist\u00f3ricos s\u00e3o o tema de \u201cWe Do Not Part\u201d (2025), da escritora Han Kang. Traduzido para o ingl\u00eas tr\u00eas anos depois do seu lan\u00e7amento na Coreia do Sul e com estreia marcada no Brasil para maio de 2025 sob o t\u00edtulo \u201cSem despedidas\u201d (Todavia), o livro explora a hist\u00f3ria de um dos per\u00edodos mais cru\u00e9is do pa\u00eds: o Massacre de Jeju, que dizimou aproximadamente 10% dos moradores da ilha e permaneceu por d\u00e9cadas sem visibilidade devido \u00e0s sucessivas ditaduras militares.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a quando Kyungha, uma autora aterrorizada por pesadelos desde que come\u00e7ou a escrever sobre o Massacre de Gwangju, recebe uma mensagem urgente ap\u00f3s uma amiga, Inseon, ser internada por causa de um acidente. Ao chegar ao hospital, a protagonista descobre ter uma miss\u00e3o. Ela precisa ir a uma vila isolada em Jeju, onde a amiga mora, para salvar seu p\u00e1ssaro de estima\u00e7\u00e3o. O animal n\u00e3o pode ficar muito tempo sem comida e \u00e1gua, ent\u00e3o \u00e9 imprescind\u00edvel que Kyungha viaje o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O percurso n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, porque assim que chega \u00e0 ilha, uma tempestade se alastra na regi\u00e3o. A maioria dos \u00f4nibus para de circular, os moradores se protegem em suas casas, o com\u00e9rcio fecha, e a personagem principal se v\u00ea completamente isolada. Rodeada de neve, sem comunica\u00e7\u00e3o com o mundo exterior e com um destino incerto \u00e0 frente, ela passa a ter medo de estar na imin\u00eancia da morte. Como encontrar a casa com poucas orienta\u00e7\u00f5es enquanto anoitece? Retornar n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel devido ao hor\u00e1rio, ent\u00e3o resta apenas seguir em frente.<\/p>\n\n\n\n<p>No caminho, Kyungha adentra um universo on\u00edrico, em que n\u00e3o consegue diferenciar realidade de sonho. Neste lugar indefinido entre a vida e a morte, ela revisita a trajet\u00f3ria da amiga, cuja hist\u00f3ria est\u00e1 conectada ao Massacre de Jeju. Ali, em meio \u00e0s \u00e1rvores cobertas de neve, ao vento frio, \u00e0s luzes estranhas e aos encontros imposs\u00edveis no mundo concreto, o passado desafia as leis do tempo e permanece no presente. Isso porque a mem\u00f3ria da viol\u00eancia e o som ecoado de d\u00e9cadas de silenciamento podem ser apreendidos dentro da vila onde todos os seus moradores foram assassinados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesclar fic\u00e7\u00e3o com fatos hist\u00f3ricos, Han Kang utiliza um recurso similar ao de \u201cAtos Humanos\u201d (2021), que re\u00fane um mosaico de vozes sobre os acontecimentos do Massacre de Gwangju: o de conceder aos mortos uma chance de contar as pr\u00f3prias experi\u00eancias. Sejam eles v\u00edtimas diretas das viol\u00eancias ou n\u00e3o, os esp\u00edritos ganham espa\u00e7o nas duas obras da escritora, talvez porque a literatura &#8211; e a arte, no geral &#8211; \u00e9 a \u00fanica forma de eternizar em primeira pessoa as lembran\u00e7as de quem morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir disso, com uma narradora que n\u00e3o sabe se est\u00e1 morta, delirando, sonhando ou apenas vivendo, os leitores se aproximam da trag\u00e9dia que assolou Jeju entre 1947 e 1953. Tamb\u00e9m conhecido como \u201c4.3\u201d ou \u201c3 April Uprising\u201d, o conflito iniciou durante o Governo Militar do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos na Coreia e perdurou na presid\u00eancia de Syungman&nbsp;Rhee, um anticomunista pr\u00f3-estadunidense. No in\u00edcio, o que eram apenas alguns protestos no Samiljeol, dia relacionado ao movimento da independ\u00eancia contra o colonialismo japon\u00eas, tornou-se uma insurrei\u00e7\u00e3o em grande escala (Park, 2010). Mas, no per\u00edodo da Guerra Fria e no in\u00edcio da separa\u00e7\u00e3o entre Coreia do Sul e Coreia do Norte, n\u00e3o demorou para que Jeju fosse classificada como comunista. Assim, milhares de pessoas foram assassinadas arbitrariamente pela pol\u00edcia, por militares e por grupos de ultradireita sob a ideia de combate ao comunismo (Kim, 2021). At\u00e9 mesmo crian\u00e7as eram mortas por associa\u00e7\u00e3o (Kim, 2021): se um parente parecia ser membro de uma guerrilha, de um movimento de resist\u00eancia ou era simplesmente um estudante, todos os familiares tamb\u00e9m eram perseguidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que seja quase imposs\u00edvel dimensionar as viol\u00eancias vividas durante a \u00e9poca, por ser um horror situado \u201cfora da vida e da morte\u201d (Arendt, 2000, p. 494), Han Kang transforma a pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o em um fruto da for\u00e7a da mem\u00f3ria. Com uma narrativa sens\u00edvel, n\u00e3o linear e repleta de perguntas n\u00e3o respondidas, \u201cWe Do Not Part\u201d n\u00e3o permite que ningu\u00e9m apague a dor de cidad\u00e3os que vivenciaram governos autorit\u00e1rios. Mais que isso: o livro recorda o que \u00e9 ser humano diante de viol\u00eancias que destro\u00e7am qualquer conceito de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ARENDT, Hannah. <strong>As origens do totalitarismo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>PARK, Eugene Y. <strong>Korea<\/strong>: A History. Stanford: Stanford University Press, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>KANG, Han. <strong>Atos Humanos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>KANG, Han. <strong>We Do Not Part<\/strong>. Londres: Hogarth, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>KIM, Hyejin. <strong>Transmission of Memory<\/strong>: heritage trail and jeju uprising. 2021. 132 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) &#8211; Curso de Artes, Charles University, Praga, 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/dspace.cuni.cz\/handle\/20.500.11956\/128151\"><u>https:\/\/dspace.cuni.cz\/handle\/20.500.11956\/128151<\/u><\/a>. Acesso em: 07 mar. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SOBRE A AUTORA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Clara Menezes<\/p>\n\n\n\n<p>Mestranda em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na \u00e1rea de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cWe Do Not Part\u201d: o olhar de Han Kang para um passado que n\u00e3o pode ser esquecido por Clara Menezes &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;imagem: Jessica Gow\/TT\/Alamy Ainda que muitas mem\u00f3rias do passado tentem ser apagadas por governos autorit\u00e1rios, as marcas de viol\u00eancias quase inenarr\u00e1veis atravessam o tempo e invadem indiv\u00edduos de diferentes gera\u00e7\u00f5es. 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