{"id":7121,"date":"2023-12-19T10:14:05","date_gmt":"2023-12-19T13:14:05","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=7121"},"modified":"2023-12-19T10:28:09","modified_gmt":"2023-12-19T13:28:09","slug":"artigo-de-opiniao-movimento-feminista-4b-da-coreia-do-sul-uma-explicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=7121","title":{"rendered":"ARTIGO DE OPINI\u00c3O | Movimento Feminista 4B da Coreia do Sul: Uma Explica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o e Coment\u00e1rio Cr\u00edtico: Su\u00e9llen Gentil<br>Alexsandro Pizziolo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Imagem: Movimento 4B. <a aria-label=\"Security Distillery (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/thesecuritydistillery.org\/all-articles\/south-koreas-4b-movement-how-patriarchy-undermines-demographic-security\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"ek-link\">Security Distillery<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O romance de Cho Nam-Joo publicado em 2016, &#8220;Kim Jiyoung, nascida em 1982&#8221;, \u00e9 uma leitura devastadora. Relata as experi\u00eancias di\u00e1rias de machismo, desigualdade e misoginia implac\u00e1veis vividas por todas as mulheres na Coreia do Sul contempor\u00e2nea. \u00c9 tamb\u00e9m um livro que ajudou a impulsionar o Movimento 4B no pa\u00eds. Porque, tal como a hero\u00edna de Nam-Joo, as mulheres sul-coreanas est\u00e3o fartas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Desgastadas pela discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que habita todos os cantos da sua sociedade, as seguidoras do Movimento 4B n\u00e3o querem apenas lutar contra o patriarcado, mas afastar-se dele completamente. Al\u00e9m do romance de Nam-Joo, o 4B se inspirou na campanha &#8220;Escape The Corset&#8221; (\u201cfuja do espartilho\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), que ganhou corpo no pa\u00eds em 2017, gra\u00e7as a pioneiras como Jeon Bora, que fotografou mulheres que rasparam a cabe\u00e7a em um ato de rebeli\u00e3o, e Summer Lee, que se filmou sem maquiagem e usando roupas largas e \u201cmasculinizadas\u201d. Ambas documentaram as tentativas das mulheres sul-coreanas de se livrarem da domina\u00e7\u00e3o masculina e ajudaram a atrair um n\u00famero crescente de seguidores para o 4B.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O 4B \u00e9 organizado em quatro princ\u00edpios: Bihon (recusa ao casamento heterossexual), Bichulsan (recusa ao parto), Biyeonae (recusa ao namoro) e Bisekseu (recusa \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sexuais heterossexuais). As proponentes do movimento, como as youtubers Lina Bae (uma influenciadora de beleza que compartilha as suas experi\u00eancias com os padr\u00f5es de beleza inating\u00edveis), Baek Ha-na e Jung Se-Young (Baek Ha-na trabalha com contabilidade durante o dia e \u00e0 noite faz v\u00eddeos para o youtube junto \u00e0 Jung Se-Young. O nome do canal em ingl\u00eas \u00e9 Solo-darity), publicam atualiza\u00e7\u00f5es sobre os seus objetivos e progresso. \u201cDepois de estudar feminismo e n\u00e3o casamento, comecei a viver minha vida mais focada em mim mesma\u201d, diz HaNa, enquanto a decis\u00e3o de Se-Young de n\u00e3o se casar foi influenciada por ver como sua m\u00e3e e sua av\u00f3 foram tratadas como \u201csubordinadas\u201d  em sua fam\u00edlia. Os protestos acontecem on-line e em cidades de todo o pa\u00eds. Uma manifesta\u00e7\u00e3o pelos direitos das mulheres em 2018, em Seul, durou 33 horas, enquanto uma mulher ap\u00f3s outra subia ao palco para relatar as suas experi\u00eancias de viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O Ocidente muitas vezes v\u00ea a Coreia do Sul atrav\u00e9s de lentes coloridas. \u00c9 um pa\u00eds constru\u00eddo com base na dignidade, no respeito, nos grupos de K-pop sorridentes e na tecnologia inovadora. Um pa\u00eds que \u00e9 certamente mais liberal do que o seu vizinho do Norte. No entanto, a Coreia do Sul tem um longo hist\u00f3rico de subjuga\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Durante a Guerra da Coreia (1950-53), as mulheres eram obrigadas a caminhar por estradas que pensavam poder conter minas terrestres para verificar a seguran\u00e7a. Entre 1953 e 2021, o aborto era ilegal na maioria das circunst\u00e2ncias. Um estudo do governo sul-coreano de 2015 revelou que quase 80% das mulheres foram assediadas sexualmente no trabalho. Os crimes digitais, incluindo a persegui\u00e7\u00e3o e o ass\u00e9dio sexual, como o molka \u2013 os atos de filmar secretamente por baixo das saias das mulheres em locais p\u00fablicos ou em banheiros \u2013 s\u00e3o abundantes. De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o atual, os homens acusados de persegui\u00e7\u00e3o podem pedir \u00e0s suas v\u00edtimas que retirem as acusa\u00e7\u00f5es. No ano passado, um homem assassinou sua antiga colega de trabalho depois que ela se recusou a faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O Global Gender Gap Index (\u00cdndice Global de Disparidade de G\u00eanero, em tradu\u00e7\u00e3o livre) de 2022, do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, classifica a Coreia do Sul em 99\u00ba lugar entre 146 pa\u00edses em termos de igualdade de g\u00eanero. Um artigo de janeiro de 2023 no jornal sul-coreano The Sisa Times relatou que 65% das mulheres no pa\u00eds n\u00e3o querem ter filhos. Cerca de 42% n\u00e3o querem casar, com mais de 80% delas citando a viol\u00eancia dom\u00e9stica como principal raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O atual presidente (homem) do pa\u00eds, Yoon Suk-Yeol, prometeu encerrar o Minist\u00e9rio da Igualdade de G\u00eanero e Fam\u00edlia da Coreia do Sul, que apoia mulheres e v\u00edtimas de agress\u00e3o sexual, alegando que trata os homens como \u201cpotenciais criminosos sexuais\u201d. Em novembro passado, os meios de comunica\u00e7\u00e3o locais informaram que o governo de Suk-Yeol retirou os termos \u201cigualdade de g\u00eanero\u201d e \u201cminorias sexuais\u201d dos manuais escolares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em seu novo livro, \u201cFlowers Of Fire\u201d, a jornalista sul-coreana Hawon Jung analisa o recente desenvolvimento dos movimentos feministas. Quando perguntada a respeito do que ela acha que o 4B pode alcan\u00e7ar, Jung aponta para uma cita\u00e7\u00e3o no seu livro de Lee Na-Young, professora de sociologia na Universidade Chung-Ang de Seul. \u201cAs normas patriarcais na Coreia do Sul, dada a sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e o n\u00edvel educacional das suas mulheres, s\u00e3o t\u00e3o implac\u00e1veis que a resist\u00eancia contra elas tende a ser igualmente intensa\u201d, diz Na-Young. \u201cMovimentos como o 4B s\u00e3o uma mensagem de alerta de que as mulheres boicotariam os relacionamentos rom\u00e2nticos, a menos que a sociedade e os homens mudem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O movimento 4B desafia n\u00e3o apenas a estrutura patriarcal, mas tamb\u00e9m questiona a ideia convencional do que \u00e9 esperado das mulheres em termos de casamento, maternidade, relacionamentos e at\u00e9 mesmo express\u00e3o pessoal. Sua abordagem radical em rejeitar relacionamentos rom\u00e2nticos e sexuais heterossexuais como uma forma de protesto contra a domina\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 uma faceta que reflete a intensidade da busca por mudan\u00e7as estruturais na sociedade sul-coreana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em certa medida, o movimento \u00e9 tamb\u00e9m um reflexo da insatisfa\u00e7\u00e3o com os movimentos feministas atuantes no territ\u00f3rio coreano nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000, que dispensaram tempo e recursos em investidas legislativas que surtiram pouco efeito na viv\u00eancia cotidiana das mulheres sul-coreanas. Os avan\u00e7os propagados pelos governos de Kim Dae Jung e Roh Moo Hyun, respons\u00e1veis por uma institucionaliza\u00e7\u00e3o do feminismo nas inst\u00e2ncias governamentais sul-coreanas, mostraram-se extremamente limitados \u00e0s conjunturas econ\u00f4micas e sociais. Na mesma \u00e9poca, a ideia de \u201cfam\u00edlia normal\u201d, baseada numa concep\u00e7\u00e3o patriarcal e heteronormativa de fam\u00edlia, foi amplamente divulgada no pa\u00eds e \u201csequestrou\u201d os debates p\u00fablicos a respeito do lugar da mulher na sociedade sul-coreana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Dessa forma, o movimento destaca a import\u00e2ncia da autossufici\u00eancia e da autonomia das mulheres, incentivando-as a se concentrarem em suas pr\u00f3prias vidas, objetivos e desenvolvimento pessoal em vez de se submeterem a normas de g\u00eanero estabelecidas. Isso n\u00e3o apenas desafia as expectativas sociais, mas tamb\u00e9m visa redefinir a liberdade feminina de uma maneira que desvincula sua identidade e valor do contexto tradicionalmente definido pelo casamento e pela maternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Essa abordagem radical e desafiadora tem gerado debates intensos na sociedade sul-coreana e recebeu tanto apoio entusi\u00e1stico quanto cr\u00edticas fervorosas. \u00c9 um movimento que continua a evoluir, provocando discuss\u00f5es significativas sobre identidade de g\u00eanero, direitos das mulheres e o futuro da sociedade sul-coreana.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">COATES, S. South Korea\u2019s Feminist 4B Movement: An Explainer. 2023. <strong>Service95<\/strong>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.service95.com\/4b-movement-explainer\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KIM, S; KIM, K. Gender mainstreaming and the institutionalization of the women&#8217;s movement in South Korea. <strong>Women&#8217;s Studies International Forum<\/strong>, v. 34, n. 5, p. 390-400, set. 2011. DOI: 10.1016\/j.wsif.2011.05.004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LEE, J; JEONG, E. The 4B movement: envisioning a feminist future with\/in a non-reproductive future in Korea. <strong>Journal of Gender Studies<\/strong>, v. 30, n. 5, p. 633-644, 2021. DOI: 10.1080\/09589236.2021.1929097.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o e Coment\u00e1rio Cr\u00edtico: Su\u00e9llen GentilAlexsandro Pizziolo Imagem: Movimento 4B. Security Distillery. O romance de Cho Nam-Joo publicado em 2016, &#8220;Kim Jiyoung, nascida em 1982&#8221;, \u00e9 uma leitura devastadora. 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