{"id":7053,"date":"2023-11-28T08:56:42","date_gmt":"2023-11-28T11:56:42","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=7053"},"modified":"2023-11-28T09:40:03","modified_gmt":"2023-11-28T12:40:03","slug":"artigo-de-opiniao-desenvolvimento-nuclear-da-coreia-popular-uma-forma-de-sobreviver-ao-sistema-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=7053","title":{"rendered":"ARTIGO DE OPINI\u00c3O | Desenvolvimento nuclear da Coreia Popular: uma forma de sobreviver ao sistema internacional?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Jayanne Balbino<br>Maria Luiza Schaffer<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Imagem: <a aria-label=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/asia-pacific\/letter-north-koreas-kim-chinas-xi-calls-communication-unity-cooperation-kcna-2022-10-15\/ (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/asia-pacific\/letter-north-koreas-kim-chinas-xi-calls-communication-unity-cooperation-kcna-2022-10-15\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"ek-link\">https:\/\/www.reuters.com\/world\/asia-pacific\/letter-north-koreas-kim-chinas-xi-calls-communication-unity-cooperation-kcna-2022-10-15\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-ek-indent\" style=\"--ek-indent:100px\">H\u00e1 bombas que movem montanhas. Literalmente. Em 3 de setembro de 2017, foi detectado um movimento s\u00edsmico de 6.3 na Coreia do Norte, seguido de outro de menor magnitude oito minutos e meio depois. A ditadura de Kim Jong-un confirmou que havia detonado uma bomba nuclear (DOM\u00cdNGUEZ, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">In\u00fameras vezes os jornais brasileiros noticiaram testes de m\u00edsseis bal\u00edsticos e armas nucleares realizados pela Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica da Coreia (RPDC) nos \u00faltimos anos. As ideias veiculadas s\u00e3o n\u00edtidas: a bomba coreana representa um risco iminente para a humanidade, e Kim Jong Un \u00e9 um ditador de comportamento imprevis\u00edvel. O programa nuclear coreano tem sido uma quest\u00e3o de grande destaque na comunidade internacional desde a sua retirada definitiva do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP) em 11 de janeiro de 2003. Neste sentido, vinte anos ap\u00f3s esse momento hist\u00f3rico, propomos uma an\u00e1lise concisa das poss\u00edveis raz\u00f5es que levaram \u00e0 sa\u00edda do TNP e ao subsequente desenvolvimento do programa nuclear na RPDC nessas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>1. Regula\u00e7\u00f5es internacionais do uso de armamento nuclear: a elabora\u00e7\u00e3o do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP) e a sa\u00edda da RPDC do acordo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u201cL\u00e1 vem bomba?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Desde agosto de 1945, com o ataque feito pelos Estados Unidos contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki, esta pergunta n\u00e3o deixou o cen\u00e1rio internacional. A trag\u00e9dia humanit\u00e1ria de mais de 200 mil mortos foi o golpe final de uma guerra j\u00e1 vencida, que desencadeou uma corrida entre as novas pot\u00eancias do mundo pelo dom\u00ednio do conhecimento da f\u00edsica nuclear e da sua aplica\u00e7\u00e3o para fins militares (MOUR\u00c3O, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quem quisesse se manter no p\u00e1reo do cen\u00e1rio pol\u00edtico e econ\u00f4mico internacional teria que disputar a dianteira da corrida nuclear (ZONARI; LIMA, 2015a, p. 269). Nesse sentido, Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica lideraram esse processo, seguidos por algumas pot\u00eancias mais fracas: Fran\u00e7a, Inglaterra e China. O alarde internacional sobre uma poss\u00edvel guerra nuclear marcou a Guerra Fria, uma vez que o embate direto entre essas pot\u00eancias faria o mundo mergulhar em uma guerra de propor\u00e7\u00f5es desconhecidas. N\u00e3o \u00e0 toa, o debate sobre uso das novas armas foi pauta da primeira Assembleia Geral da rec\u00e9m-fundada Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), em 1946, e se estendeu em disputa at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, quando s\u00e3o elaborados os princ\u00edpios basilares do que hoje conhecemos como o Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP) (ZONARI; LIMA, 2015a, p. 272).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assinado em 1968, o TNP promoveu a separa\u00e7\u00e3o entre os Estados Nuclearmente Armados (ENA), pa\u00edses que j\u00e1 tinham produzido armas nucleares (Estados Unidos, Fran\u00e7a, Inglaterra, URSS e China), e os Estados Nuclearmente N\u00e3o Armados (ENNA), o resto do mundo. Enquanto os ENA ficaram com suas armas, os ENNA \u201crenunciaram de modo expresso a qualquer direito de produzir ou adquirir armamentos at\u00f4micos\u201d, sob a condi\u00e7\u00e3o de que poderiam prosseguir com seus programas nucleares para fins pac\u00edficos com aux\u00edlio dos ENA e que os ENA gradualmente se desarmariam (ZONARI; LIMA, 2015a, p. 272).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Vale acrescentar que nem sempre a entrada de novos pa\u00edses no Tratado foi espont\u00e2nea. No caso da Coreia Popular, essa se deu ap\u00f3s a cont\u00ednua press\u00e3o dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1985, com a promessa sovi\u00e9tica de aux\u00edlio no desenvolvimento de outros modais energ\u00e9ticos e a retirada do armamento nuclear estadunidense da por\u00e7\u00e3o sul da pen\u00ednsula coreana (ZONARI; LIMA, 2015b, p. 294-295).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O tempo passou e os arsenais nucleares dos ENA seguem cheios, em contrapartida, os ENNA s\u00e3o cobrados a se manterem sem essas tecnologias e, portanto, indefesos ao ataque dos primeiros (AMORIM, 2010). Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o passou despercebida pelos coreanos da RPDC, que em 1993 fizeram o an\u00fancio de retirada do Tratado e, efetivamente, sa\u00edram no dia 11 de janeiro de 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A sa\u00edda da Coreia Popular do Tratado n\u00e3o apenas escancarou as falhas da dita \u201c\u2018pedra filosofal\u2019 do regime internacional de n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o nuclear\u201d (ZONARI; LIMA, 2015b, p. 270), como tamb\u00e9m marcou uma grande virada na pol\u00edtica externa e interna da RPDC. Sobre essa \u00faltima quest\u00e3o, Zonari e Lima (2015b, p. 275) pontuam que a manuten\u00e7\u00e3o do programa nuclear e de m\u00edsseis bal\u00edsticos da RPDC se baseia em duas quest\u00f5es centrais: (a) a amea\u00e7a estadunidense na regi\u00e3o e manter sua autonomia frente a URSS, atual R\u00fassia, e a China; (b) conflitos internos do pa\u00eds. Exploraremos estes dois t\u00f3picos daqui adiante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.1 Guerra Fria e<\/strong> <strong>o dilema da seguran\u00e7a na \u00c1sia Pac\u00edfico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No p\u00f3s-Guerra Fria, a partir da d\u00e9cada de 1990, o sistema internacional esperava que quest\u00f5es relacionadas ao armamentismo fossem retiradas de debate. A dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a nova perspectiva global de avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia liberal e \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o entre os Estados se tornariam prioridades na agenda dos pa\u00edses. Entretanto, <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-ek-indent\" style=\"--ek-indent:100px\">O fim da guerra fria com a elimina\u00e7\u00e3o das polaridades definidas (em termos de socialismo versus capitalismo) induziu a um processo de descentraliza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es de seguran\u00e7a que passaram a ter um car\u00e1ter mais regionalizado do que universalizado (DE OLIVEIRA, 2004, p. 2).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Percebe-se que a perspectiva de seguran\u00e7a, inicialmente global, adquire um car\u00e1ter regional, como ocorre na \u00c1sia-Pac\u00edfico, com \u00eanfase na pen\u00ednsula coreana. Dessa forma, o esquema de seguran\u00e7a regional mant\u00e9m suas ra\u00edzes h\u00e1 anos antes do fim da Guerra Fria, sem que haja um consenso entre os Estados da regi\u00e3o. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a presen\u00e7a militar dos Estados Unidos na regi\u00e3o, notadamente por meio de coaliz\u00f5es que consolidam sua pol\u00edtica de equil\u00edbrio de poder. A Zona Desmilitarizada exemplifica uma quest\u00e3o antiga e n\u00e3o resolvida entre esses pa\u00edses. Esta \u00e1rea abriga cerca de um milh\u00e3o de soldados coreanos ao Norte e aproximadamente 650.000 coreanos ao Sul, al\u00e9m de contingentes norte americanos, todos eles armados e posicionados para qualquer eventual conflito (DE OLIVEIRA, 2004). Ao longo dos anos subsequentes houve melhorias nas rela\u00e7\u00f5es entre esses Estados, mas a tens\u00e3o regional ainda persiste. Assim, \u201ca \u00c1sia Pac\u00edfico permanece como uma das regi\u00f5es mais armadas do mundo e com uma tend\u00eancia de crescimento da corrida armamentista\u201d (DE OLIVEIRA, 2004, p. 6).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>2. Amea\u00e7as internas na Coreia Popular<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Antes de tratarmos diretamente sobre como o programa nuclear se insere no contexto pol\u00edtico e estrat\u00e9gico na Coreia Popular, traremos um pouco sobre o seu modo de pol\u00edtica \u2014 o Songun. Kim Jong Il (2017), em seu pronunciamento no Comit\u00ea Central do Partido do Trabalho da Coreia em 29 de janeiro de 2003, trouxe pontos centrais desta forma de pol\u00edtica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-ek-indent\" style=\"--ek-indent:100px\">Para essa pol\u00edtica o tema militar tem suma import\u00e2ncia. O Ex\u00e9rcito \u00e9 o destaque fundamental e o corpo da revolu\u00e7\u00e3o e seu fortalecimento \u00e9 a tarefa principal. A caracter\u00edstica essencial dela reside em defender a seguran\u00e7a da P\u00e1tria e as conquistas  da revolu\u00e7\u00e3o, mediante a pot\u00eancia do Ex\u00e9rcito Popular como invenc\u00edveis for\u00e7as armadas revolucion\u00e1rias, constituir solidamente o sujeito da revolu\u00e7\u00e3o, tomando o Ex\u00e9rcito como seu centro, como sua for\u00e7a principal, e realizar todos os trabalhos da constru\u00e7\u00e3o socialista com \u00edmpeto revolucion\u00e1rio e combativo (KIM, 2017, p. 2).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ao longo do seu discurso fica clara a ideia de que para avan\u00e7ar com a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso ter ex\u00e9rcito e armas capazes de defend\u00ea-la das for\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias e imperialistas. Partindo desse entendimento, \u00e9 poss\u00edvel chegar \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: para fazer frente aos Estados Unidos, pa\u00eds contrarrevolucion\u00e1rio nuclearmente armado, n\u00e3o basta apenas ter um ex\u00e9rcito bem treinado, \u00e9 preciso que se desenvolva um arsenal \u00e0 sua altura. Nesse sentido, a constru\u00e7\u00e3o de um programa nuclear e missial\u00edstico aparece como uma necessidade incontorn\u00e1vel para a manuten\u00e7\u00e3o da forma de governo coreana, que conta com amplo apoio popular no pa\u00eds, inclusive durante per\u00edodos de recess\u00e3o econ\u00f4mica (VISENTINI et al., 2015, p. 172).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"254\" height=\"170\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Captura-de-tela-2023-11-28-091548.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7057\"\/><figcaption>Fonte: O Globo, 2023.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Visentini et al. (2015) localizam a iniciativa como parte da nova Linha Byungjin, uma atualiza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica do Songun, que busca conciliar os interesses civis com os militares. O programa nuclear se insere nessa din\u00e2mica visto que a constru\u00e7\u00e3o desse novo arsenal &#8220;permite liberar recursos para outros setores da economia, ao mesmo tempo que garante a seguran\u00e7a e a soberania do pa\u00eds&#8221; (p. 172). Dessa forma, o l\u00edder coreano diminu\u00eda o poder da elite burocr\u00e1tica e da c\u00fapula do ex\u00e9rcito e, consequentemente, a possibilidade de um golpe no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>3. Amea\u00e7as externas na Coreia Popular: a crise de 2013<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando Kim Jong-un assumiu o poder em 2012 ocorreu uma tentativa de lan\u00e7amento do foguete Unha-2 para celebrar o nascimento de seu av\u00f4, Kim Il-Sung, o fundador da RDPC. Entretanto, essa tentativa n\u00e3o alcan\u00e7ou o sucesso esperado. Essa a\u00e7\u00e3o foi interpretada como uma viola\u00e7\u00e3o de um acordo estabelecido com os Estados Unidos em 1994 (BRITES, 2014). Posteriormente, o pa\u00eds decidiu n\u00e3o mais cumprir os acordos e tratados que o restringiam de desenvolver e testar m\u00edsseis bal\u00edsticos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ent\u00e3o, em dezembro do mesmo ano, Pyongyang anunciou o lan\u00e7amento do Unha-3, com repercuss\u00f5es que se desenrolaram no ano seguinte, em janeiro de 2013. A resolu\u00e7\u00e3o 2087 do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas condenou a Coreia Popular pelo lan\u00e7amento do foguete no ano anterior. Esta resolu\u00e7\u00e3o exigia que a RPDC cumprisse integralmente suas obriga\u00e7\u00f5es, conforme estabelecido nas resolu\u00e7\u00f5es 1718 (2006) e 1874 (2009), que inclu\u00edam o abandono completo de todas as armas nucleares e programas nucleares existentes e a proibi\u00e7\u00e3o de realizar novos lan\u00e7amentos que utilizassem tecnologia de m\u00edsseis bal\u00edsticos, testes nucleares ou qualquer outra forma de provoca\u00e7\u00e3o (BRITES, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-ek-indent\" style=\"--ek-indent:100px\">(\u2026) a tecnologia de testes de m\u00edsseis bal\u00edsticos \u00e9 a mesma para lan\u00e7amento de foguetes, o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU condenou a Coreia do Norte por violar o acordo de 1994. Nesse sentido, refor\u00e7ou san\u00e7\u00f5es j\u00e1 impostas em 2006 e 2009, com corte de toda a ajuda humanit\u00e1ria. Em resposta \u00e0 Resolu\u00e7\u00e3o 2087, os norte coreanos anunciaram a prolonga\u00e7\u00e3o de seus testes, os quais passariam a abranger n\u00e3o apenas m\u00edsseis, mas tamb\u00e9m incluiriam prop\u00f3sitos nucleares (BRITES, 2014, p. 59).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em meio \u00e0s tens\u00f5es, a RPDC continuou realizando testes nucleares, o que provocou debates internacionais na \u00e9poca. Em resposta direta a esses acontecimentos, os Estados Unidos e a Coreia do Sul conduziram um exerc\u00edcio conjunto denominado Foal Eagle em ilhas historicamente disputadas entre as duas Coreias. Entretanto, esse exerc\u00edcio envolveu os bombardeiros stealth estadunidenses, os B-2, equipados com armamento nuclear, representando um claro aviso \u00e0s autoridades norte coreanas (BRITES, 2014). Conforme estipulado pelo Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP), na\u00e7\u00f5es detentoras de armamento nuclear n\u00e3o podem utiliz\u00e1-lo para amea\u00e7ar outros pa\u00edses como uma arma dissuas\u00f3ria. No entanto, os norte-americanos o empregaram exatamente com esse prop\u00f3sito contra os norte-coreanos. Nesse contexto, a Coreia Popular se retira definitivamente de todos os acordos e tratados de n\u00e3o agress\u00e3o com o Sul e mant\u00e9m seu discurso hostil perante a amea\u00e7a estadunidense. Dessa forma, \u00e9 um consenso que foi \u201c(\u2026) a pior crise coreana desde o armist\u00edcio de 1953. Desde a sua tomada de poder, houve uma mudan\u00e7a na imagem e no estilo de lideran\u00e7a de Kim Jong-Un, que se aproxima da figura do seu av\u00f4 Kim Il-Sung\u201d (BRITES, 2014, p. 61).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>4. Potencial b\u00e9lico como estrat\u00e9<\/strong>gia de sobreviv\u00eancia no Sistema internacional<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A corrente realista das rela\u00e7\u00f5es internacionais sustenta tr\u00eas pressupostos fundamentais: 1) a estrutura do sistema internacional \u00e9 an\u00e1rquica, desprovida de qualquer for\u00e7a supranacional que possa coibir as a\u00e7\u00f5es dos Estados; 2) os Estados s\u00e3o os principais atores; 3) o objetivo central \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Com base nessa premissa, os Estados no Sistema internacional buscam garantir n\u00e3o apenas sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m a seguran\u00e7a de sua popula\u00e7\u00e3o, e uma das estrat\u00e9gias utilizadas para alcan\u00e7ar esse objetivo \u00e9 o fortalecimento de seu poder militar. No campo dos estudos estrat\u00e9gicos surge a importante concep\u00e7\u00e3o da capacidade dissuas\u00f3ria que, em ess\u00eancia, refere-se \u00e0 habilidade de um ator estatal em desencorajar ou limitar as a\u00e7\u00f5es de um advers\u00e1rio, seja ele real ou potencial, com o objetivo de salvaguardar sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Sendo assim, \u201c(\u2026) a defesa se orienta no sentido da prote\u00e7\u00e3o dos interesses nacionais no entorno estrat\u00e9gico, mormente contra poss\u00edveis inger\u00eancias de pot\u00eancias extrarregionais\u201d (LIMA, 2017, s\/p ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No contexto da Coreia Popular destaca-se a doutrina Juche, que emergiu a partir da luta contra a opress\u00e3o imperialista japonesa e os interesses das grandes pot\u00eancias estrangeiras na pen\u00ednsula coreana. O nacionalismo coreano emergiu nesse contexto da domina\u00e7\u00e3o japonesa, e os princ\u00edpios socialistas se fundiram para criar uma nova perspectiva do socialismo. (VISENTINI et al., 2015). Com o desenrolar da Guerra da Coreia (1950-1953), esses elementos se consolidaram no Norte da pen\u00ednsula coreana, continuando a servir de alicerce para o governo da regi\u00e3o. Desde sua origem, \u201co governo Norte-coreano demandava o direito de lidar com seus pr\u00f3prios problemas de forma independente, de acordo com suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias\u201d (GWANG, 2019, s\/p ), em parte como resposta \u00e0s hist\u00f3ricas interfer\u00eancias de pot\u00eancias estrangeiras na regi\u00e3o. De certa forma, podemos argumentar que essa postura se perpetuou at\u00e9 os dias atuais. Em um cen\u00e1rio internacional crescentemente vol\u00e1til, com o fim do bloco socialista e um n\u00famero de aliados cada vez mais reduzido, o l\u00edder da RPDC concentra seus esfor\u00e7os no desenvolvimento da ind\u00fastria de defesa com o objetivo primordial de garantir a seguran\u00e7a dos interesses nacionais e a sobreviv\u00eancia do Estado coreano. Uma demonstra\u00e7\u00e3o concreta dessa estrat\u00e9gia \u00e9 o not\u00e1vel progresso alcan\u00e7ado no desenvolvimento desses armamentos ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, transmitindo a mensagem indiscut\u00edvel de Kim Jong-un: o pa\u00eds est\u00e1 preparado para contra-atacar e garantir sua autodefesa de maneira inabal\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nosso prop\u00f3sito central neste artigo foi analisar as motiva\u00e7\u00f5es da sa\u00edda da Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica da Coreia (RPDC) do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o das Armas Nucleares em 2003. Como um ator no sistema internacional, com uma base aliada cada vez mais fr\u00e1gil e advers\u00e1rios fortes, a RPDC encara de frente o desafio de garantir a soberania e a integridade de seu Estado, partindo de seu programa nuclear como forma de lutar pela continuidade da revolu\u00e7\u00e3o. Tudo isso em um cen\u00e1rio em que as organiza\u00e7\u00f5es e tratados internacionais \u2014 que deveriam desempenhar um papel significativo na regula\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses e evitar uma poss\u00edvel guerra nuclear \u2014 parecem estar mais preocupados em condenar o recente programa nuclear de pa\u00edses que oficialmente se retiraram do TNP, como o Paquist\u00e3o e a Coreia Popular, enquanto arsenais desenvolvidos h\u00e1 mais de 50 anos, como os dos EUA, da China, da Fran\u00e7a, do Reino Unido e da R\u00fassia permanecem distantes do fim e sem a garantia de que n\u00e3o sejam usados, seja como meio de dissuas\u00e3o, seja de forma direta, em futuros conflitos ou tens\u00f5es internacionais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m disso, no que diz respeito \u00e0 geopol\u00edtica da RPDC, o pa\u00eds partilha fronteiras com duas na\u00e7\u00f5es detentoras de armas nucleares (China e R\u00fassia) que nem sempre o apoiaram. Al\u00e9m disso, enfrenta a presen\u00e7a de seu maior rival, os Estados Unidos, que est\u00e1 \u00e0 espreita na fronteira ao Sul. Conclui-se que a sa\u00edda do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares e a constru\u00e7\u00e3o de um programa nuclear s\u00e3o uma parte essencial da pol\u00edtica interna e externa da Coreia Popular.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">AMORIM, Celso. <strong>2010 Review Conference of the Parties to the Treaty on the Non Proliferation Nuclear Weapons<\/strong>. United Nations Searchs, 2010. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.un.org\/en\/conf\/npt\/2010\/statements\/statements.shtml. Acesso em: 15 set. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">BRITES, Pedro Vin\u00edcius Pereira.<strong> A crise na pen\u00ednsula coreana e a seguran\u00e7a regional do Leste Asi\u00e1tico<\/strong>. 2014. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos Estrat\u00e9gicos Internacionais) \u2013 Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">OLIVEIRA, Henrique Altemani de. A Seguran\u00e7a Regional e o Desenvolvimento Nuclear na Cor\u00e9ia do Norte. In: MERA, Carolina. (Org.). Estudios Coreanos en Am\u00e9rica Latina. Buenos Aires: Ediciones Al Margen, v. 1, p. 375-398, 2004. Dispon\u00edvel em: (www4.pucsp.br\/geap\/coordenador\/aseguran.PDF) Acesso em: 15 ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">DOM\u00cdNGUEZ, Nu\u00f1o. A maior bomba at\u00f4mica da Coreia do Norte deforma uma montanha e revela seus segredos. <strong>El Pa\u00eds<\/strong>, 11 mai. 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/10\/internacional\/1525949636_119708.html. Acesso em: 13 set. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GWANG, Oon Kim. <strong>A constru\u00e7\u00e3o do Estado norte-coreano<\/strong>. The Journal of Korean Studies &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Carvalho. Revista Opera, [S. l.], p. s\/p, 25 set. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/09\/25\/a-construcao-do-estado norte-coreano-parte-1\/. Acesso em: 15 ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Lima, Maria Regina Soares de.<strong> Atlas Da Poli\u0301tica Brasileira de Defensa<\/strong>. CLACSO: Latitude Sul, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">HOBSBAWN, Eric. <strong>Era dos Extremos:<\/strong> o breve s\u00e9culo XX (1914-1991). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KIM, Jong Il. A Linha Revolucion\u00e1ria do Songun \u00e9 uma Grande Linha de Nossa \u00c9poca e a Bandeira Sempre Vitoriosa de Nossa Revolu\u00e7\u00e3o. <strong>Centro de Estudos da Pol\u00edtica Songun,<\/strong> 7 set. 2017. Dispon\u00edvel em: https:\/\/cepsongunbr.com\/2017\/09\/07\/kim-jong-il-a-linha-revolucionaria-do-songun-e-uma-grande-linha-de-nossa-epoca-e-a-bandeira-sempre-vitoriosa-de-nossa-revolucao\/. Acesso em: 15 set. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MOUR\u00c3O, Ronaldo Rog\u00e9rio de Freitas. Hiroshima e Nagasaki: raz\u00f5es para experimentar a nova arma. <strong>Scientiae studia<\/strong>, S\u00e3o Paulo, v. 3, n.4, p. 683-710, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">VISENTINI, Paulo G. F.; PEREIRA, Anal\u00facia D.; MELCHIONNA, Helena H. <strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Coreana: <\/strong>o desconhecido socialismo Zuche. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">VISENTINI, P.; MELCHIONNA, H. As reformas econ\u00f4micas e a sucess\u00e3o pol\u00edtica na Cor\u00e9ia do Norte. <strong>Conjuntura Austral<\/strong>, [S. l.], v. 3, n. 9-10, p. 4 &#8211; 14, 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/ConjunturaAustral\/article\/view\/25910. Acesso em: 15 set. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">ZONARI, Mariana Luz. <strong>O Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares<\/strong>: desafios para a democracia entre as na\u00e7\u00f5es. Fortaleza: Premius, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">ZONARI, Mariana Luz; LIMA, Martonio Mont\u2019Alverne Barreto. O Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares e o desafio imposto pelo seu direito de retirada: um estudo do problem\u00e1tico caso norte-coreano. <strong>Lima: Revista Brasileira de Direito Internacional<\/strong>, v. 1, n. 1, 2015a. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">ZONARI, Mariana Luz; LIMA, Martonio Mont\u2019Alverne Barreto. Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares e o desafio para a paz e seguran\u00e7a internacionais. <strong>Revista do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos<\/strong>, n. 15, p. 269-285, 2015b<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jayanne BalbinoMaria Luiza Schaffer Imagem: https:\/\/www.reuters.com\/world\/asia-pacific\/letter-north-koreas-kim-chinas-xi-calls-communication-unity-cooperation-kcna-2022-10-15\/ H\u00e1 bombas que movem montanhas. Literalmente. Em 3 de setembro de 2017, foi detectado um movimento s\u00edsmico de 6.3 na Coreia do Norte, seguido de outro de menor magnitude oito minutos e meio depois. A ditadura de Kim Jong-un confirmou que havia detonado uma bomba nuclear (DOM\u00cdNGUEZ, 2018). In\u00fameras [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":7054,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":11,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[3,101],"tags":[42,37],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7053"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7053"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7058,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7053\/revisions\/7058"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}