{"id":6874,"date":"2023-10-18T08:24:35","date_gmt":"2023-10-18T11:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6874"},"modified":"2023-10-18T09:42:48","modified_gmt":"2023-10-18T12:42:48","slug":"artigo-de-opiniao-pernambuco-e-o-japao-clarice-lispector-tradutora-de-yukio-mishima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6874","title":{"rendered":"ARTIGO DE OPINI\u00c3O | Pernambuco e o Jap\u00e3o: Clarice Lispector tradutora de Yukio Mishima"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Rafael Cavalcanti Lemos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Imagem cedida por Paulo Gurgel Valente<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nos primeiros s\u00e9culos da Am\u00e9rica portuguesa, a origem judaica de prestigiosas fam\u00edlias pernambucanas foi, enquanto necess\u00e1rio e poss\u00edvel, oculta por receio justific\u00e1vel de persegui\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o no Brasil e al\u00e9m-mar, tendo pouco menos que um par de dec\u00eanios e meio havido de toler\u00e2ncia religiosa neerlandesa. Transcursos cerca de duzentos e cinquenta anos da Restaura\u00e7\u00e3o, uma vaga lenta e constante de judeus nova, perseguida de novo e discriminada na Europa, pela terceira vez reconhece, como lar tamb\u00e9m seu, Pernambuco. Arrastando a crian\u00e7a Chaya Pinkhasivna. Clarice (submerso, s\u00f3 ressurgir\u00e1 em pedra, na &#8220;casa da vida&#8221; [&#8220;bet hayyim&#8221;], o hebraico Chaya) Lispector. Pernambucana: &#8220;Fiz na minha vida v\u00e1rias viagens por mar. \u00c0 medida que eu for escrevendo vou me lembrando delas. A primeira foi com menos de dois meses de idade, da Alemanha (Hamburgo) ao Recife&#8221; (Viajando por Mar, 5 de junho de 1971).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Escrita \u00e9 sobreviv\u00eancia: &#8220;Acho que a gente luta tanto para produzir uma obra de arte s\u00f3 para sobreviver. Por que ser\u00e1 que a gente luta tanto para poder produzir uma obra de arte? Acho que \u00e9 para sobreviver.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 19). Sobreviv\u00eancia e desfazimento de mitos: &#8220;Recebo de vez em quando carta perguntando-me se sou russa ou brasileira, e me rodeiam de mitos. [\u2026] Cheguei ao Brasil com apenas dois meses de idade. Sou brasileira naturalizada, quando, por uma quest\u00e3o de meses, poderia ser brasileira nata. [\u2026] Criei-me em Recife [\u2026] Minhas crendices foram aprendidas em Pernambuco, as comidas que mais gosto s\u00e3o pernambucanas.&#8221; (Esclarecimentos, 14 de novembro de 1970).  [C]omo a gente dizia l\u00e1 em Recife: Virgem Maria!\u2026&#8221; (C\u00e9rebro Eletr\u00f4nico, 13 de julho de 1968). &#8220;&#8216;Vou \u00e9 me acautelar, por via das d\u00favidas debaixo das folhas hei de morar&#8217; \u2013 de onde me vinha essa toada? N\u00e3o sei, mas boca de povo em Pernambuco n\u00e3o erra.&#8221; (A Favor do Medo, 11 de novembro de 1967).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Escreveu as &#8220;primeiras hist\u00f3rias aos sete anos, todas come\u00e7ando com &#8216;era uma vez&#8217;. Eu as enviava para a p\u00e1gina infantil das quintas-feiras do jornal de Recife [Diario de Pernambuco], e nenhuma, mas nenhuma mesmo, foi jamais publicada. E mesmo ent\u00e3o era f\u00e1cil de ver por qu\u00ea. Nenhuma contava propriamente uma hist\u00f3ria com os fatos necess\u00e1rios a uma hist\u00f3ria. Eu lia as que eles publicavam, e todas relatavam um acontecimento. Mas se eles eram teimosos, eu tamb\u00e9m. Desde ent\u00e3o, por\u00e9m, eu havia mudado tanto, quem sabe agora j\u00e1 estava pronta para o verdadeiro &#8216;era uma vez&#8217;. Perguntei-me em seguida: e por que n\u00e3o come\u00e7o? agora mesmo? Ser\u00e1 simples, senti eu. E comecei. No entanto, ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era imposs\u00edvel. Eu havia escrito: &#8216;Era uma vez um p\u00e1ssaro, meu Deus.'&#8221; (Ainda Imposs\u00edvel, 19 de fevereiro de 1972).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Completos doze anos, Yukio Mishima (pseud\u00f4nimo de Kimitake Hiraoka) foi ao teatro cab\u00faqui pela primeira vez com a av\u00f3 (Natsuko) paterna e ao n\u00f4 (assistiu a Miwa) com a materna (Tomi Hashi, praticante de canto n\u00f4 em estilo Kanze), tendo adolescente escrito a primeira pe\u00e7a: Os Magos do Oriente (inspirada no Evangelho segundo S\u00e3o Mateus). Entusiasmavam-no Torahiko Koori (adaptador de n\u00f4 cl\u00e1ssicos ao teatro moderno, autor exemplo de m\u00e1 escrita em livro do curso ginasial) e os dramas po\u00e9ticos de Yeats imbu\u00eddos do n\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Livros nomeiam povos. Crist\u00e3os e judeus s\u00e3o Povos do Livro. Escritores povoam de leitores um territ\u00f3rio imagin\u00e1rio. Clarice, cosmopolita como deveria ser todo leitor se deseja conhecer o homem, habitava outrossim o moderno Jap\u00e3o n\u00f4 de Yukio Mishima, convocando-nos lus\u00f3fonos \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria por meio da retradu\u00e7\u00e3o (do ingl\u00eas americano de Donald Keene) nunca publicada de Sotoba Komachi, livremente intitulada (n\u00e3o todavia por Clarice) A Cent\u00e9sima Noite em portugu\u00eas. (As mercadorias japonesas vendidas no Recife pela fam\u00edlia Basbaum no n\u00famero 37 da rua da Imperatriz, em que fundadas nos anos 1930 as memor\u00e1veis Lojas Brasileiras, n\u00e3o foram, portanto, os \u00fanicos pontos de contato entre a comunidade judaica pernambucana e aquilo que do Jap\u00e3o provinha.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No Brasil o autor, estreou no Jap\u00e3o em fevereiro de 1952 Sotoba Komachi. Mishima<br>reescrevera a pe\u00e7a trecentista (substancialmente modificada por Zeami) hom\u00f4nima (em portugu\u00eas Komachi sobre o Stupa) do ator autor Kan&#8217;ami Kiyotsugu, instrutora do p\u00fablico no conceito budista de &#8220;ichinyokan&#8221; (&#8220;vis\u00e3o da unidade&#8221;: n\u00e3o-dualista a l\u00f3gica, indistintos fundamentalmente tanto dum cepo um &#8220;sotoba&#8221; quanto duma p\u00e1ria iluminada [&#8220;satoreru hinin&#8221;] uma pedinte [&#8220;kotsugainin&#8221;]) integrando-o ao tema de veleidade e perda da lend\u00e1ria beleza da poetisa &#8220;tanka&#8221; Ono no Komachi (protagonista [&#8220;shite&#8221;] evocada tr\u00eas cent\u00farias mais tarde em &#8220;haiku&#8221; e &#8220;renku&#8221; por Bash\u00f4), vic\u00e1ria (como a &#8220;freira portuguesa&#8221; de cartas ap\u00f3crifas no s\u00e9culo XVII) da pena de outrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Apresentava-se entre 1930 e 1950 teatro \u00eddiche no Recife, em portugu\u00eas (textos de Scholem Aleichem v.g. na tradu\u00e7\u00e3o de Berta Margolis) quando o uso daquela l\u00edngua declinou. A partir de 1958, o Teatro de Estudantes Israelitas de Pernambuco passou a representar obras sem preocupar-se-lhes com a judeidade, tendo em 1959 recebido diversos pr\u00eamios em Santos no II Festival Nacional de Teatro de Estudantes e em 1960 inaugurado o teleteatro da TV Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Alhures, principiou Clarice a traduzir como of\u00edcio em 1941 (at\u00e9 1977, foram 46 os t\u00edtulos vertidos: &#8220;[q]uase sempre teve de recorrer \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es para complementar o or\u00e7amento mensal&#8221; &#8211; BORELLI, 1981, p. 45) e f\u00ea-lo de teatro com Tati de Moraes na d\u00e9cada de 60 A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garc\u00eda Lorca, A Gaivota, de Anton Tch\u00e9khov (tradu\u00e7\u00e3o inacabada), As Pequenas Raposas, de Lillian Hellman, e Hedda Gabler, de Henrik Ibsen (por que receberam da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Teatro em 1966 o pr\u00eamio de melhor tradu\u00e7\u00e3o): &#8220;Traduzo, sim, mas fico cheia de medo de ler tradu\u00e7\u00f5es que fazem de livros meus. Al\u00e9m de ter bastante enjoo de reler coisas minhas, fico tamb\u00e9m com medo do que o tradutor possa ter feito com um texto meu.&#8221; (Traduzir Procurando N\u00e3o Trair, maio de 1968).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Comp\u00f4s ela pr\u00f3pria teatro, ainda que t\u00e3o somente duas pe\u00e7as. A primeira, Pobre Menina Rica, em tr\u00eas atos, aos nove anos de idade, havendo-a perdido in\u00e9dita: &#8220;Escondi atr\u00e1s da estante porque tinha vergonha de escrever.&#8221; (depoimento gravado em 20 de outubro de 1976 no fluminense Museu da Imagem e do Som). A segunda e \u00faltima, A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos, redigida, diz, \u201cpor divers\u00e3o enquanto eu esperava o nascimento de meu primeiro filho&#8221; (introdu\u00e7\u00e3o a Fundo de Gaveta), estreou, apenas em 1964, n&#8217;A Legi\u00e3o Estrangeira (conquanto j\u00e1 em carta datada de 1949 cobrasse Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto ao texto para sua prensa manual).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A tradu\u00e7\u00e3o de Sotoba Komachi havia sido encomendada a Clarice pelo psiquiatra, cen\u00f3grafo e diretor teatral recifense Eros Martim Gon\u00e7alves Pereira (fundador em 1951 d&#8217;O carioca Tablado com Maria Clara Machado, de cujo pai, o escritor mineiro An\u00edbal, frequentava a resid\u00eancia), quem lhe tamb\u00e9m pedira que vertesse ao portugu\u00eas uma segunda obra n\u00f4 moderna mishimiana: O Tambor de Damasco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Chamam-se &#8220;sotoba&#8221; as l\u00e1pides budistas. (S\u00f3i que a morte &#8211; como a imortalidade do esp\u00edrito-figure no teatro n\u00f4.) Komachi \u00e9 vista muito idosa, em Mishima por um poeta, por religiosos Shingon em Kan&#8217;ami, sentada respectivamente num banco de parque (que, de acordo com o poeta, ent\u00e3o &#8220;se torna frio como uma sepultura, um banco feito de lages [sic] de cemit\u00e9rio&#8221;) ou (crendo-o um cepo) num velho e desgastado &#8220;sotoba&#8221; (desrespeitando num caso Buda e noutro incomodando amantes), cujo \u00e9timo \u00e9 o s\u00e2nscrito &#8220;st\u016bpa&#8221; (aportuguesado &#8220;estupa&#8221;), literalmente &#8220;monte&#8221; mas no budismo &#8220;santu\u00e1rio&#8221;. &#8220;Sotoba&#8221; consistem em pedra ou madeira e possuem divis\u00f5es que remetem, simbolizando o corpo de Buda, aos cinco elementos (terra, \u00e1gua, fogo, vento, \u00e9ter); em Kan&#8217;Ami o desgaste do &#8220;sotoba&#8221; acusa a condi\u00e7\u00e3o de Komachi, quem, contudo e tipicamente a um enredo n\u00f4, revelar-se-\u00e1 uma beleza em desgra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A despeito de predominantemente amidista (habitual no Jap\u00e3o medievo, vertente em que a palavra escrita [estudo de escritura] ou falada [repeti\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmula] conduz ao &#8220;satori&#8221; [&#8220;intui\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;compreens\u00e3o&#8221;, &#8220;ilumina\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;despertar&#8221;]) o budismo em pe\u00e7as n\u00f4, Komachi advoga em Kan&#8217;ami a doutrina zen. Patriarca do zen-budismo, cria K\u0101\u015byapa que sen\u00e3o pela introspec\u00e7\u00e3o contemplativa revelar-se-ia a verdade. Professavam-no artistas (Komachi foi poetisa) e mecenas japoneses: &#8220;Esse ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem e a desconfian\u00e7a, t\u00e3o caracter\u00edstica ao zen budismo, em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento conceitual traz consigo uma formula\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica e um encurtamento das palavras. O dito brilha pelo n\u00e3o dito. Formas incomuns de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas.&#8221; (HAN, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;A doutrina Zen &#8211; e isto a op\u00f5e \u00e0s demais tend\u00eancias budistas &#8211; afirma que as f\u00f3rmulas, os livros can\u00f4nicos, os ensinamentos dos grandes te\u00f3logos e mesmo a pr\u00f3pria palavra de Buda s\u00e3o desnecess\u00e1rios. Zen predica a ilumina\u00e7\u00e3o s\u00fabita.&#8221; (PAZ, 1996, p. 159): &#8220;s\u00f3 mesmo sentindo as flores brotando &#8211; vendo-as sem a intermedia\u00e7\u00e3o da cultura, da ideologia comunit\u00e1ria (classifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica, cient\u00edfica ou popular, tradi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, conota\u00e7\u00f5es euf\u00f3ricas ou disf\u00f3ricas) [\u2026] &#8211; para verdadeiramente adquirir a consci\u00eancia plena da primavera que se aproxima.&#8221; (ROSSONI, 2002, p. 30). Deve-se &#8220;dar aten\u00e7\u00e3o pura e simples ao que se v\u00ea, ao que est\u00e1 bem \u00e0 frente, sem men\u00e7\u00e3o a julgamentos, coment\u00e1rios, reflex\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es, conclus\u00f5es etc. Simplesmente o ver, isento de qualquer inten\u00e7\u00e3o.&#8221; (ROSSONI, 2002, p. 31).<\/p>\n\n\n\n<p>im\u00f3vel contemplo a lua<\/p>\n\n\n\n<p>e os outros pensam<\/p>\n\n\n\n<p>que sou cego<\/p>\n\n\n\n<p>(Bash\u014d)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;\u00c0s vezes [Clarice] interrompia tudo e ficava horas mergulhada em medita\u00e7\u00e3o.&#8221; (BORELLI, 1981, p. 33): &#8220;\u00c9 preciso ter muita coragem para ir ao fundo da vida. Porque no fundo da vida nada acontece ao homem, ele s\u00f3 contempla. Nem sequer pensa no que contempla. Quando eu fico sem nenhuma palavra no pensamento e sem imagem visual interna &#8211; eu chamo isso de meditar.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 35). &#8220;A absor\u00e7\u00e3o r\u00e1pida dos fatos e o mergulho imediato na medita\u00e7\u00e3o faziam-na sentir-se marginalizada, e provocavam-lhe profundo sentimento de culpa diante dos que se afainavam nas atividades comuns do cotidiano.&#8221; (BORELLI, 1981, p. 44). Amava os animais &#8220;porque n\u00e3o lhe pediam nenhuma l\u00f3gica&#8221; (BORELLI, 1981, p. 55).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;[O] termo [japon\u00eas] Zen [\u2026] prende-se, etimologicamente, ao chin\u00eas ch&#8217;an que deriva da palavra s\u00e2nscrita dhy[\u0101]na e pode ser traduzida &#8211; aproximadamente &#8211; por &#8216;medita\u00e7\u00e3o&#8217;.&#8221; (ROSSONI, 2002, p. 28). Como distingue Han (2019), &#8220;[a] medita\u00e7\u00e3o zen \u00e9 radicalmente diferente da medita\u00e7\u00e3o de Descartes [\u2026] O mestre zen D\u014dgen comunicaria a Descartes que ele poderia continuar com a sua medita\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ar ainda mais com a sua d\u00favida e aprofund\u00e1-la ainda mais, at\u00e9 chegar \u00e0quela grande d\u00favida, at\u00e9 ele mesmo se tornar essa grande d\u00favida [\u2026] No zen-budismo [\u2026] [a paz] \u00e9 alcan\u00e7ada [\u2026] por meio da suspens\u00e3o da pergunta-por-qu\u00ea, da pergunta pelo fundamento.&#8221;: &#8220;Se eu tivesse que dar um t\u00edtulo \u00e0 minha vida seria: \u00e0 procura da pr\u00f3pria coisa.&#8221; (Clarice Lispector &#8211; parte II [Fundo de Gaveta] d&#8217;A Legi\u00e3o Estrangeira, Aproxima\u00e7\u00e3o Gradativa).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No magist\u00e9rio do zen-budismo, &#8220;[p]ara provocar dentro do disc\u00edpulo o estado prop\u00edcio \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o, os mestres recorrem aos paradoxos, ao absurdo, ao contra-senso e, em suma, a todas aquelas formas que tendem a destruir nossa l\u00f3gica e a perspectiva normal e limitada das coisas. Mas a destrui\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica n\u00e3o tem por objeto remeter-nos ao caos ou ao absurdo e sim, atrav\u00e9s da experi\u00eancia do sem-sentido, descobrir um novo sentido. S\u00f3 que este sentido \u00e9 incomunic\u00e1vel atrav\u00e9s das palavras. Apenas o humor, a poesia ou a imagem podem nos fazer vislumbrar em que consiste a nova vis\u00e3o.&#8221; (PAZ, 1996, p. 160): &#8220;N\u00e3o s\u00f3 as palavras [\u2026] podem gerar conceitos. As imagens, os gestos, as atitudes, as situa\u00e7\u00f5es materiais, tamb\u00e9m podem significar, conceitualmente. De todas as converg\u00eancias e tang\u00eancias entre o cinismo grego e o zen sino-nip\u00f4nico, esta a mais vis\u00edvel: \u00e9 consci\u00eancia atingida sem palavras. O zen se passa todo num plano transverbal. O treinamento nas comunidades zen encaminha as consci\u00eancias em dire\u00e7\u00e3o a um despertar (sat\u00f4ri, em japon\u00eas), uma ilumina\u00e7\u00e3o, indescrit\u00edvel e intransfer\u00edvel. [\u2026] Os processos usados pelos mestres, no adestramento dos pretendentes \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os mais aberrantes, para nossos conceitos ocidentais de pedagogia, centrados na palavra. [\u2026] os processos de treinamento incluem a concentra\u00e7\u00e3o em certas anedotas exemplares, atribu\u00eddas a velhos mestres, chamadas, em japon\u00eas, koans. Di\u00f3genes, ao meio-dia, procurando um homem com uma l\u00e2mpada acesa, \u00e9 um koan perfeito.&#8221; (LEMINSKI, 2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;Tradi\u00e7\u00f5es, meio escritas, meio orais, reportam [um] epis\u00f3dio, envolvendo Bash\u00f4, poesia e zen. Seu mestre Bucch\u00f4 o repreendeu por dedicar demasiada aten\u00e7\u00e3o ao haikai (at\u00e9 Bash\u00f4, uma esp\u00e9cie de divers\u00e3o social e fr\u00edvola, versinhos humor\u00edsticos e trocadilhescos, compar\u00e1veis a certas quadras nordestinas do tipo [\u2026] do preg\u00e3o do vendedor de batatas. [\u2026] \u00c0 repreens\u00e3o de Bucch\u00f4, Bash\u00f4: \u2014 Haikai \u00e9 apenas o que est\u00e1 acontecendo aqui e agora. Ent\u00e3o, Bucch\u00f4 compreendeu.&#8221; (LEMINSKI, 2013). &#8220;Zen afirma que o estado satori \u00e9 aqui e agora&#8221; (PAZ, 1996, p. 160). Haicais s\u00e3o express\u00e3o do zen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;Filosofia mais do que religi\u00e3o, o budismo postula como primeira condi\u00e7\u00e3o da vida reta o desaparecimento da ignor\u00e2ncia acerca de nossa verdadeira natureza. [\u2026] O eu revela-se ilus\u00f3rio: \u00e9 uma entidade sem realidade pr\u00f3pria, composta por agregados ou fatores mentais. O conhecimento consiste antes de tudo em perceber a irrealidade do eu, causa principal do desejo e de nosso apego ao mundo. Assim, a medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a gradual destrui\u00e7\u00e3o do eu e das ilus\u00f5es que engendra; ela nos desperta do sonho ou mentira que somos e vivemos. Este despertar \u00e9 a ilumina\u00e7\u00e3o (Sambodhi em s\u00e2nscrito e Satori em japon\u00eas).&#8221; (PAZ, 1996, p. 159).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;Minha liberdade? Minha pr\u00f3pria liberdade n\u00e3o \u00e9 livre: corre sobre trilhos invis\u00edveis. [\u2026] Mas no sonho dos acordados h\u00e1 uma ligeireza inconseq\u00fcente de riacho borbulhando e correndo. O estado de ser. A improvisa\u00e7\u00e3o como modo de viver. Mesmo as narrativas discursivas t\u00eam em si uma liberdade, se n\u00e3o de quebra do condicionamento, mas de improvisa\u00e7\u00e3o do destino. Como \u00e9 que se pode aprisionar um instante de beleza? E nem se pode aprisionar a harmonia. Tudo que \u00e9 mais valioso n\u00e3o passa de um momento r\u00e1pido &#8211; e logo, extinto &#8211; de liberta\u00e7\u00e3o. [\u2026] Estou cega pelo desejo de liberdade. Ser livre &#8211; livre de mim mesma, esse mim que foi trucidado pelo excesso secante de id\u00e9ias. [\u2026] O bom de escrever \u00e9 que n\u00e3o sei o que vou escrever na pr\u00f3xima linha. Eu queria saber sobre o que pretendem de mim os meus livros.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 44 e 75).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No zen-budismo, &#8220;[t]odo ente constitui um centro. Como um centro af\u00e1vel, que nada exclui, ele espelha o todo em si mesmo. O ente se des-interioriza, se abre sem limites [\u2026] O vazio do zenbudismo nega [\u2026] toda forma de retorno narcisista a si. [\u2026] Ir-sem-inten\u00e7\u00e3o [\u2026] \u00e9 o pr\u00f3prio caminho. [\u2026] As pinturas de paisagens de Yu Chien inspiradas pelo zen-budismo, &#8216;Oito vistas de Hsiao Hsing&#8217;, podem ser interpretadas como vistas do vazio. Elas consistem em pinceladas fugidias, apenas sugestivas, rastros, por assim dizer, que n\u00e3o fixam nada. As formas representadas surtem efeito<br>revestidas de uma caracter\u00edstica aus\u00eancia. Tudo parece tender, mal tendo estado ali, a mais uma vez mergulhar na aus\u00eancia. [\u2026] Busca-se por uma vis\u00e3o que ocorra antes da separa\u00e7\u00e3o entre &#8216;sujeito&#8217; e &#8216;objeto&#8217;. Nenhum &#8216;sujeito&#8217; deve se intrometer na coisa. Uma coisa tem de ser vista tal como ela mesma \u00e9. Uma certa prioridade do objeto deve preserv\u00e1-la da apropria\u00e7\u00e3o por meio do &#8216;sujeito&#8217;. [\u2026] O vazio \u00e9 o aberto que permite uma penetra\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. [\u2026] Nada se recolhe em um para-si isolado. [\u2026] O campo do vazio \u00e9 livre de toda compuls\u00e3o por identidade [\u2026] O vazio impede apenas que o indiv\u00edduo se aferre a si mesmo. [\u2026] O vazio n\u00e3o significa [\u2026] uma nega\u00e7\u00e3o do individual. A vis\u00e3o iluminada v\u00ea cada ente brilhar em sua unicidade. E nada impera. A lua [refletida] permanece af\u00e1vel \u00e0 \u00e1gua [refletora]. Os entes habitam uns nos outros, sem se imporem, sem incapacitarem o outro. [\u2026] Nega-se apenas a demarca\u00e7\u00e3o substancial que produz tens\u00f5es oposicionais.&#8221; (HAN, 2019). &#8220;Toda pessoa se sente diferente. Por que n\u00e3o se unem mentalmente ligados pela diferen\u00e7a<br>fazendo da diferen\u00e7a a diferen\u00e7a comum? Ser\u00e1 talvez porque amem e odeiem o comum?&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 49).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Clarice n\u00e3o possu\u00eda &#8220;qualquer vincula\u00e7\u00e3o religiosa expl\u00edcita&#8221; (BORELLI, 1981, p. 34). &#8220;Em suas \u2018descobertas&#8217; &#8211; sempre anotadas &#8211; procurava nunca dissociar os extremos: bem e mal, amor e \u00f3dio, divino e diab\u00f3lico. Tinha horror ao manique\u00edsmo: preferia sofrer no \u00e2mago de perguntas sem resposta a impor um dogma que anulasse seu contr\u00e1rio.&#8221; (BORELLI, 1981, p. 34): &#8220;Eu sou extremamente realista. Mas acontece o seguinte: eu &#8216;adivinho&#8217; a realidade mais do que eu a vejo. [\u2026] Nunca tive, enfim, o que se chama verdadeiramente de vida intelectual. At\u00e9 para escrever uso minha intui\u00e7\u00e3o mais do que a intelig\u00eancia. [\u2026] O vazio, e o n\u00e3o pensar, \u00e9 o melhor estado mental para que as imagens se fa\u00e7am. [\u2026] Quando eu procuro demais um &#8216;sentido&#8217; &#8211; \u00e9 a\u00ed que n\u00e3o o encontro. [\u2026] Procuro o deslumbramento. O deslumbramento que eu s\u00f3 conseguirei atrav\u00e9s da abstra\u00e7\u00e3o total de mim. [\u2026] Mas o deslumbramento que eu tenho dura o espa\u00e7o instant\u00e2neo de uma vis\u00e3o e eis-me de novo no escuro. [\u2026] As palavras \u00e9 que me impedem de dizer a verdade. [\u2026] O que n\u00e3o sei dizer \u00e9 mais importante do que o que eu digo. [\u2026] Meu livro melhor acontecer\u00e1 quando eu de todo n\u00e3o escrever.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 41, 66, 78, 79 e 85). &#8220;O Zen em Clarice n\u00e3o est\u00e1 apenas no enunciado, mas no modo pelo qual ela criou um espa\u00e7o ficcional em que aspectos do Zen podem ser lidos daquela perspectiva.&#8221; (AZEVEDO, 2002, p. 17): &#8220;Assim como o Zen &#8211; que muito al\u00e9m de uma filosofia ou religi\u00e3o &#8211; \u00e9 viv\u00eancia pr\u00e1tica que visa colocar o homem em sintonia plena com a din\u00e2mica da pr\u00f3pria vida, o discurso de Clarice pode &#8211; como efeito &#8211; refletir um esp\u00edrito similar evidenciando empenho para a harmoniza\u00e7\u00e3o absoluta com as coisas e consigo mesma, pelo autoconhecimento&#8221; (ROSSONI, 2002, p. 25).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Que na troca de impress\u00f5es entre as personagens de Mishima ter\u00e1 suscitado interesse em Clarice?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;VELHA. \u2014 \u00c9 aqui que voc\u00ea cata as coisas que p\u00f5e nos poemas? POETA. \u2014 Deixe de<br>absurdos. Porque, namorados, lampe\u00f5es [sic] \u2013 voc\u00ea acha que eu usaria material t\u00e3o vulgar? VELHA. \u2014 Com o tempo deixar\u00e1 de ser vulgar. N\u00e3o h\u00e1 nada que j\u00e1 n\u00e3o tenha sido vulgar.&#8221; \u2014 verte. Na escrita clariciana dum conto, &#8220;o mais vulgar movimento do mundo, como um simples estender de m\u00e3o esmolando, ou o rega\u00e7ar de uma cal\u00e7a expondo uma ferida, juntavam-se em sua mente a mil outros fragmentos de vis\u00f5es&#8221; (BORELLI, 1981, p. 70). &#8220;Ditos zen como &#8216;o Buda s\u00e3o cacos de tijolo e telhas&#8217; ou &#8216;um quilo e meio de c\u00e2nhamo&#8217; apontam [\u2026] para uma postura zen-budista que \u00e9 voltada \u00e0 iman\u00eancia. Elas expressam o &#8216;esp\u00edrito do cotidiano&#8217; que faz do zen-budismo uma religi\u00e3o da iman\u00eancia. [\u2026] O caminho [\u2026] leva a uma profunda iman\u00eancia, a um mundo cotidiano de &#8216;homens e mulheres, velhos e jovens, panelas e chaleiras, gatos e colheres&#8217;. [\u2026] A ilumina\u00e7\u00e3o [&#8216;satori&#8217;] [\u2026] \u00e9 o despertar para o comum. [\u2026] [O] zen-budismo [\u2026] n\u00e3o conhece nem fuga nem nega\u00e7\u00e3o do mundo. [\u2026] A ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 um despertar para o cotidiano. [\u2026] O que importa \u00e9 contemplar, na repeti\u00e7\u00e3o do comum, do ancestral, o incomum.&#8221; (HAN, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;POETA. \u2014 [\u2026] h\u00e1 uma coisa que eu respeito &#8211; o mundo que se reflete nos olhos das criaturas que se amam, e que \u00e9 cem vezes mais lindo do que a realidade [\u2026] VELHA. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 mo\u00e7o, e n\u00e3o tem experi\u00eancia, ainda n\u00e3o tem olhos para ver coisas. [\u2026] H\u00e1 muito tempo, quando eu era mo\u00e7a, nunca tinha a sensa\u00e7\u00e3o de estar viva a menos que minha cabe\u00e7a estivesse num rodopio. [\u2026] compreendo que eu estava morrendo enquanto me aconteciam\u2026 Quanto pior a bebida, mais depressa embriaga. Em meio da minha bebedeira, e daquele sentimentalismo, e das minhas l\u00e1grimas, eu estava morrendo\u2026&#8221;. CLARICE \u2013 &#8220;A extrema felicidade se parece tanto com a infelicidade. Ambas s\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1ticas.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 19).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;POETA. \u2014 (Ca\u00e7oando dela) Diga minha velha, que motivo voc\u00ea tem para viver? VELHA. \u2014 Motivo? N\u00e3o seja rid\u00edculo. O simples fato de existir j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 motivo suficiente? N\u00e3o sou um cavalo que s\u00f3 galopa porque est\u00e1 querendo uma cenoura.&#8221;. CLARICE \u2013 &#8220;Vida \u00e9 o desejo de continuar vivendo [\u2026] Por que vivo? \u00c9 porque vivo. Por que vives? \u00c9 porque vives. [\u2026] Me justificar mais do que a vida?&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 19 e 20). Vida \u00e9 um fim em si mesmo. Ininstrumentaliz\u00e1vel. &#8220;VELHA. \u2013 O homem n\u00e3o vive apenas para morrer.&#8221;. CLARICE \u2013 &#8220;A vida serve \u00e9 para se morrer dela.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 19).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;POETA. \u2013 Deixe que eu lhe pergunte uma coisa, velha. Quem \u00e9 voc\u00ea. VELHA. \u2013 Eu fui uma mulher chamada Komachi POETA. \u2013 Mas quem? VELHA. \u2013 Todos os homens que disseram que eu era bela, j\u00e1 morreram. Agora, tenho a certeza de que o homem que me chamar de bela morrer\u00e1. POETA. \u2013 (Ri.) Bem, \u00easte [sic] perigo eu n\u00e3o corro. S\u00f3 encontrei voc\u00ea j\u00e1 com noventa e nove anos. VELHA. \u2013 \u00c9 verdade, sorte sua\u2026 Mas suponho que um imbecil como voc\u00ea julgue que t\u00f4da [sic] mulher bonita fica feia logo que envelhece. Eis o grande \u00earro [sic]. Uma mulher bela \u00e9 sempre bela. Se agora pare\u00e7o feia isto significa apenas que sou uma beldade feia. [\u2026] POETA. \u2013 Estranho\u2026 seus olhos t\u00eam o frescor de uma jovem de vinte anos, as roupas, um doce perfume. Que estranha voc\u00ea \u00e9! Recuperou a juventude. VELHA. \u2013 Ah, n\u00e3o fale assim. J\u00e1 n\u00e3o avisei o que acontecer\u00e1 se disser que sou bela? POETA. \u2013 Se acho bela uma coisa, tenho que dizer, mesmo que morra por causa disso.&#8221;. CLARICE \u2013 &#8220;Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto n\u00e3o \u00e9 proibido. Mas acontece que eu quero \u00e9 exatamente me unir a essa palavra proibida.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 85).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A pe\u00e7a come\u00e7a e termina com Komachi catando guimbas: &#8220;VELHA. \u2013 Um e um faz dois, dois e dois faz quatro&#8221;. CLARICE \u2013 &#8220;[D]ois-e-dois s\u00e3o um pren\u00fancio do ilimitado sem n\u00famero? O come\u00e7o de dois-e-dois \u00e9 o nada infinito do zero: nada come\u00e7a e nada termina! Mas eu morro.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mishima &#8220;almejou a uni\u00e3o do teatro de di\u00e1logos do Ocidente com o solil\u00f3quio do n\u00f4 medieval&#8221;; emprega, afora &#8220;jorrar imagens&#8221; em met\u00e1foras, &#8220;uma ret\u00f3rica cheia de paradoxos, aforismos, ironias e epigramas [\u2026] para desenvolver com liberdade a sua an\u00e1lise e disseca\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do homem moderno&#8221; (KUSANO, 2006, p. 183 e 185). Nas pe\u00e7as traduzidas por Clarice, &#8220;s\u00e3o evidentes alguns temas recorrentes nos escritos claricianos como o tratamento simb\u00f3lico dado ao texto, as digress\u00f5es, as met\u00e1foras e a tem\u00e1tica feminina.&#8221; (GOMES, 2007, p. 114).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Komachi em Mishima assemelha-se \u00e0 aniversariante em Feliz Anivers\u00e1rio e a Mocinha (apelido de Margarida) em Viagem a Petr\u00f3polis (rebatizado como O Grande Passeio no livro Felicidade Clandestina), contos ambos de Clarice: as tr\u00eas personagens s\u00e3o idosas que vivem, sem concess\u00e3o \u00e0 fantasia alheia, um presente desditoso. &#8220;Para Mishima, o verdadeiro artista \u00e9 aquele que observa a humanidade com olhos serenos, bem abertos e frios, n\u00e3o embelezando a realidade com a embriaguez e os sonhos da juventude.&#8221; (KUSANO, 2006, p. 205). &#8220;Das mais variadas formas, Clarice se ocupou das tem\u00e1ticas abordadas nas pe\u00e7as traduzidas, refletindo sua preocupa\u00e7\u00e3o social com a condi\u00e7\u00e3o da mulher, buscando na palavra o poder para adentrar a psique humana e, por meio de uma linguagem \u00fanica, discutindo o homem em sua completude e singularidade, desvelando os meandros dos desejos humanos.&#8221; (GOMES, 2007, p. 114): &#8220;O que eu n\u00e3o disse por falta de frieza ficar\u00e1 semp[r]e no limbo.&#8221; (declara\u00e7\u00e3o de Clarice Lispector ao receber em 1976 o pr\u00eamio da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra &#8211; BORELLI, 1981, p. 71).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Faleceu em 1977, ano judaico 5738: bendito seja o Verdadeiro Juiz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Ep\u00edlogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Andar pulando &#8220;era o meu modo estranho de andar pelas ruas do Recife&#8221; (Tortura e Gl\u00f3ria, 2 de setembro de 1967), capital de &#8220;perfumadas noites de lua&#8221; (Rosas Silvestres, 25 de maio de 1968) e &#8220;in\u00fameras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins&#8221; (Cem Anos de Perd\u00e3o, 25 de julho de 1970). (Des)igualmente dos mocambos a que ia Clarice aos domingos: &#8220;em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim&#8221; (Literatura e Justi\u00e7a); &#8220;havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais algu\u00e9m discursava ardorosamente sobre a trag\u00e9dia social&#8221; (O Que Eu Queria Ter Sido, 2 de novembro de 1968). E, quando o carnaval &#8220;ia se aproximando, como explicar a agita\u00e7\u00e3o \u00edntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de bot\u00e3o que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e pra\u00e7as do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.&#8221; (Restos do Carnaval, 16 de mar\u00e7o de 1968).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando &#8220;pequena em Recife meu encabulamento nunca me impediu de descer do sobrado, ir para a rua, e perguntar a moleques descal\u00e7os: &#8216;Quer brincar comigo?'&#8221; (Vergonha de Viver, 14 de outubro de 1972). Teve aqui o recifense Leopoldo Nachbin (ep\u00f4nimo de um teorema) por fiel amigo: &#8220;Foi no primeiro dia de aula do Jardim da Inf\u00e2ncia do Grupo Escolar Jo\u00e3o Barbalho, na Rua Formosa, em Recife, que encontrei Leopoldo. E no dia seguinte j\u00e1 \u00e9ramos os dois imposs\u00edveis da turma. [\u2026] Leopoldo &#8211; al\u00e9m de meu pai &#8211; foi o meu primeiro protetor masculino [\u2026] No terceiro ano prim\u00e1rio mudei de escola. E no exame de admiss\u00e3o para o Gin\u00e1sio Pernambucano, logo de entrada, reencontrei Leopoldo [\u2026] Ele continuou a me proteger. [\u2026] Leopoldo \u00e9 Leopoldo Nachbin. Eu soube que no primeiro ano de engenharia resolveu um dos teoremas considerados insol\u00faveis desde a mais alta Antiguidade. E que imediatamente foi chamado \u00e0 Sorbonne para explicar o processo. \u00c9 um dos maiores matem\u00e1ticos que hoje existem no mundo.&#8221; (As Grandes Puni\u00e7\u00f5es, 4 de novembro de 1967). A prop\u00f3sito, &#8220;[a] intui\u00e7\u00e3o tem seu papel na f\u00edsica e na matem\u00e1tica. E, para mim, tudo aquilo em que entra intui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de arte.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 79).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Clarice &#8220;[s]entia-se isolada na literatura brasileira. N\u00e3o pertencia a nenhum grupo e nenhum grupo a convidou para fazer parte dele.&#8221; (BORELLI, 1981, p. 54). Apesar disso, &#8220;[q]uando a Clarice estava doente, j\u00e1 terminal, eu estava na casa de sa\u00fade e a vi dando os parab\u00e9ns a Raquel de Queiroz, amiga dela, por ter sido eleita para a Academia Brasileira de Letras. Clarice me contou que a Raquel de Queiroz perguntou: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o vai se candidatar? N\u00f3s queremos voc\u00ea, voc\u00ea nasceu no Brasil&#8217;. Clarice respondeu: \u2018N\u00e3o, eu vim com alguns meses&#8217;. Raquel respondeu: \u2018Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na Academia Brasileira de Letras&#8217;.&#8221; (depoimento de T\u00e2nia Kaufman em GENES, 2002, p. 39). Por for\u00e7a de lei ordin\u00e1ria (17.012, de 10 de agosto de 2020) do estado que lhe enriqueceu de mem\u00f3rias inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, Clarice \u00e9 Patrona da Literatura Pernambucana: &#8220;Na inf\u00e2ncia eu tive um cotidiano m\u00e1gico.&#8221; (texto de Clarice Lispector em BORELLI, 1981, p. 43). &#8220;E nunca fui t\u00e3o feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife. [\u2026] Meu cora\u00e7\u00e3o batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. [\u2026] A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade?&#8221; (Banhos de Mar, 25 de janeiro de 1969).<\/p>\n\n\n\n<p>primavera<\/p>\n\n\n\n<p>n\u00e3o nos deixe<\/p>\n\n\n\n<p>p\u00e1ssaros choram<\/p>\n\n\n\n<p>l\u00e1grimas<\/p>\n\n\n\n<p>no olho do peixe<\/p>\n\n\n\n<p>(Bash\u014d)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A poucos metros da casa recifense, na pra\u00e7a Maciel Pinheiro uma sua est\u00e1tua repousa eternamente as m\u00e3os sobre a m\u00e1quina de escrever: Clarice &#8220;[a]cendia um incenso, uma vela, colocava um disco na vitrola: em geral Bach, Beethoven, Stravinski ou Debussy. Sentava-se, acomodava a m\u00e1quina no colo e datilografava diligentemente uma tradu\u00e7\u00e3o ou prosseguia um conto interrompido dias antes. [\u2026] A \u00faltima viagem de sua vida levou-a a Recife: o objetivo era o reencontro com suas ra\u00edzes e suas esperan\u00e7as. Percorreu a\u00ed os lugares que viram o iniciar de sua inquieta\u00e7\u00e3o, de sua \u00e2nsia de liberdade e o desabrochar dos primeiros textos. Sentada na Pra\u00e7a Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, olhando o pequeno sobrado onde morara em crian\u00e7a, ouviu maravilhada o velho preg\u00e3o do vendedor ambulante de frutas: &#8216;\u00d4 minina voc\u00ea qu\u00e9 pitomba?'&#8221; (BORELLI, 1981, p. 33 e 43).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&#8220;Chaya&#8221; traduz-se em portugu\u00eas por &#8220;vida&#8221;. Na cabala, \u00e9 a quarta (metaindividual porque ultrapassa o sujeito habitual da experi\u00eancia: ess\u00eancia vital [al\u00e9m do instinto, da moral e do intelecto], que permite vislumbrar ou intuir o real) dentre as dimens\u00f5es da alma. Entre n\u00f3s sempre novas a sedimentar-se haja Chayas (o Jord\u00e3o passa pelo Recife e des\u00e1gua no Capibaribe), manando vi\u00e7o como Snir, D\u00e3 e Banias, inscrevendo a si e consigo a Pernambuco no leito comum duma hist\u00f3ria milenar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>APRESENTA\u00c7\u00c3O<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Rafael Cavalcanti Lemos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Juiz de direito do Tribunal de Justi\u00e7a de Pernambuco. Mestre em Ci\u00eancias Jur\u00eddicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. <em>Fellow of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland<\/em>. Pesquisador associado \u00e0 Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o da Coordenadoria de Estudos da \u00c1sia do Centro de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade Federal de Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">APTE, Vaman Shivaram. The practical Sanskrit-English dictionary. Reimpr. Delhi: Motilal Banarsidass, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">AZEVEDO, S\u00edlvia Maria. Clarice Lispector ou a literatura como conhecimento. In: ROSSONI, Igor. Zen e a po\u00e9tica autorreflexiva de Clarice Lispector: uma literatura de vida e como vida. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2002, p. 11-17.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">BASH\u014c. The complete haiku of Matsuo Bash\u014d. Oakland: University of California Press, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">BASH\u00d4, Matsuo. O eremita viajante: haikus &#8211; obra completa. Reimpr. Porto: Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">BORELLI, Olga. Clarice Lispector: esbo\u00e7o para um poss\u00edvel retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">DINES, Alberto et al. A f\u00eanix ou o eterno retorno: 460 anos da presen\u00e7a judaica em Pernambuco. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Cultura, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">DROTT, Edward R. Buddhism and the transformation of old age in medieval Japan. Honolulu: University of Hawai&#8217;i Press, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FANINI, Michele Asmar. As conflu\u00eancias entre experi\u00eancia social e produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: notas para uma sociologia da escrita de Clarice Lispector. Caderno Espa\u00e7o Feminino, v. 15, n. 18, p. 65-83, jan.\/jun. 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FERRAZ, Liedson Malan Monteiro de Castro. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria dos festivais de teatro no Brasil. Arteriais (revista do PPGARTES\/ICA\/UFPA), n. 9, p. 124-142, dez. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FERREIRA, Rony M\u00e1rcio Cardoso. Clarice Lispector: uma tradutora em fios de seda (teoria, cr\u00edtica e tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria). 2016. 366 f. Tese (Doutorado em Literatura) &#8211; Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FLANAGAN, Damian. Yukio Mishima. London: Reaktion, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FONSECA, Zilda. Desbravadores da capitania de Pernambuco: seus descendentes, suas sesmarias. Recife, Editora Universit\u00e1ria da UFPE, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FRAENKEL, Avinoam. Nefesh HaTzimtzum, volume 1: Rabbi Chaim Volozhin&#8217;s Nefesh HaChaim with translation and commentary. Jerusalem: Urim, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">FR\u00c9D\u00c9RIC, Louis. O Jap\u00e3o: dicion\u00e1rio e civiliza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Globo, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GENES, Moys\u00e9s. O 11\u00ba mandamento: reencontros. Rio de Janeiro: Espa\u00e7o e Tempo, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GOIFMAN, Felipe. Em busca de Sefarad: de Portugal a Pernambuco. Rio de Janeiro: FGR Editora, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GOMES, Andr\u00e9 Lu\u00eds. Clarice dramaturga. In: MALUF, Sheila Diab; AQUINO, Ricardo Bigi de (org.). Dramaturgia em cena. Macei\u00f3: EDUFAL, 2006, p. 19-47.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GOMES, Andr\u00e9 Lu\u00eds. Clarice em cena: as rela\u00e7\u00f5es entre Clarice Lispector e o teatro. Bras\u00edlia: Editora UnB, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GOMES, Andr\u00e9 Lu\u00eds. Entre espelhos e interfer\u00eancias: a problem\u00e1tica da tradu\u00e7\u00e3o para Clarice Lispector. Via atl\u00e2ntica, n. 7, p. 39-52, out. 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GON\u00c7ALVES, Ricardo M\u00e1rio. Considera\u00e7\u00f5es s\u00f4bre o culto de Amida no Jap\u00e3o medieval (Um exemplo de consci\u00eancia hist\u00f3rica no Budismo Japon\u00eas) (II). Revista de Hist\u00f3ria, v. 48, n. 97, p. 19-47, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GOTLIB, N\u00e1dia Bettella. Clarice: uma vida que se conta. 7\u00aa ed. rev. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GREENBERG, Robin Eve. Soul home: the Kabbalah dance and Jungian psychoanalysis. In: PEARSON, Willow; MARLO, Helen (ed.). The spiritual psyche in psychotherapy: mysticism, intersubjectivity, and and psychoanalysis. London: Routledge, 2021, p. 93-117.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">HAN, Byung-Chul. Filosofia do zen-budismo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2019. Livro eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">HARRIS, Maurice H. History of the mediaeval Jews: from the Moslem conquest of Spain to the discovery of America. New York: ed. do autor, 1907. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">HISAMATSU, Shin&#8217;ichi. Zen and the fine arts. Tokyo: Kodansha International, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KAUFMAN, T\u00e2nia Neumann. Passos perdidos, hist\u00f3ria recuperada: a presen\u00e7a judaica em Pernambuco. 5\u00aa ed. Recife: Ensol, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KIM, Junghee. Mishima Yukio&#8217;s modern noh play Sotoba Komachi: Nietzche&#8217;s influence and the ideal post-war artist. Sungkyun Journal of East Asian Studies, vol. 18, n. 2, p. 245-262, out. 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KINJO, Victor. Quem s\u00e3o Mishimas? Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">KUSANO, Darci. Yukio Mishima: o homem de teatro e de cinema. S\u00e3o Paulo: Perspectiva; Funda\u00e7\u00e3o Jap\u00e3o, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Souza, Bash\u00f4, Jesus, Tr\u00f3tski (4 biografias). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013. Livro eletr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LETTRES Portugaises traduites en Fran\u00e7ois. Paris: Claude Barbin, 1669.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LEVY, Daniela. De Recife para Manhattan: os judeus na forma\u00e7\u00e3o de Nova York. S\u00e3o Paulo: Planeta, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LIPKING, Lawrence. Abandoned women and poetic tradition. Chicago: University of Chicago Press, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LIRA NETO. Arrancados da terra: perseguidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. A legi\u00e3o estrangeira. Rio de Janeiro: Edit\u00f4ra do Autor, 1964.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. A legi\u00e3o estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector: depoimento [1 fev. 1977]. Entrevistador: J\u00falio Lerner. S\u00e3o Paulo: TV2 Cultura, 1977. Entrevista concedida ao programa Panorama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. La\u00e7os de Fam\u00edlia. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. Outros escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. Todas as cartas. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">LOJAS BRASILEIRAS, S\/A. Ata da primeira assembl\u00e9ia geral de constitui\u00e7\u00e3o. Ata da segunda assembl\u00e9ia geral de constitui\u00e7\u00e3o definitiva. Di\u00e1rio Oficial [dos] Estados Unidos do Brasil: Sociedades An\u00f4nimas, Capital Federal [Rio de Janeiro], ano LXXII, n. 270, p. 22.179-22.180, 23 nov. 1933.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MAHER, John C. Latin and Sanskrit: hidden Christians, Buddhism, and religious scholarship. In: MAHER, John C. (ed.). Language communities in Japan. Oxford: Oxford University Press, 2022, p. 224-233.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MELLO, Evaldo Cabral de. O nome e o sangue: uma par\u00e1bola geneal\u00f3gica no Pernambuco colonial. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MELLO, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Gonsalves de. Gente da na\u00e7\u00e3o: crist\u00e3os-novos e judeus em Pernambuco (1542-1654). Recife: Massangana, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MIHARA, Tokinobu (ed.). English-Japanese dictionary in Roman letters. San Francisco: Oriental Culture Book Company, 1947.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MINER, Earl; ODAGIRI, Hiroko; MORRELL, Robert E. The Princeton Companion to Classical Japanese literature. 2\u00aa impr. Princeton: Princeton University Press, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MISHIMA, Yukio. Five modern n\u014d plays. Tradu\u00e7\u00e3o de Donald Keene. New York: Vintage Books, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MISHIMA, Yukio. Sotoba Komachi: pe\u00e7a moderna japonesa. Tradu\u00e7\u00e3o de Clarice Lispector. N\u00e3o publicado. (Pelo acesso ao texto agrade\u00e7o a Paulo Gurgel Valente, \u00e0 funda\u00e7\u00e3o Casa de Rui Barbosa e a Mois\u00e9s Wolfenson). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MONIER-WILLIAMS, Monier. A Sanskrit-English dictionary etymologically and philologically arranged with special reference to cognate Indo-European languages. New Delhi: Bharatiya Granth Niketan, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">MONTERO, Teresa. \u00c0 procura da pr\u00f3pria coisa: uma biografia de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 2021. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O LIVRO de atas das congrega\u00e7\u00f5es judaicas: Zur Israel em Recife e Magen Abraham em Maur\u00edcia, Brasil, 1648-1653. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1955. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">OLIVEIRA, Yolanda Maria de. O col\u00e9gio israelita Moys\u00e9s Chvarts: tradi\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o da identidade judaica recifense. 2008. 123 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o) &#8211; Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">OZ, Am\u00f3s; OZ-SALZBERGER, Fania. Os judeus e as palavras. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">PAKMAN, Marcelo. Palabras que permanecen, palabras por venir: micropol\u00edtica e po\u00e9tica en psicoterapia. Barcelona: Gedisa, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">PAZ, Octavio. Signos em rota\u00e7\u00e3o. 3\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">P\u00c9RI, No\u00ebl. \u00c9tudes sur le drame lyrique japonais n\u014d: IV. Le n\u014d de Sotoba-Komachi. Bulletin de l&#8217;\u00c9cole fran\u00e7aise d&#8217;Extr\u00eame-Orient, t. 13, n. 4, p. 1-113, 1913.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">PERNAMBUCO. Lei N\u00ba 17.012, de 10 de agosto de 2020. Declara a escritora Clarice Lispector como Patrona da Literatura Pernambucana. Di\u00e1rio Oficial [do] Estado de Pernambuco: Poder Legislativo, Recife, ano XCVII, n. 138, p. 4, 11 ago. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">PINHO, Mar\u00edlia Gabriela Malavolta. Escrever sem palavras: a escrita ideogr\u00e2mica em Clarice Lispector. Revista Moara, n. 46, p. 287-304, ago.-dez. 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">REXROTH, Kenneth; ATSUMI, Ikuko. The burning heart: women poets of Japan. New York: Seabury Press, 1977.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">RIBEMBOIM, Jos\u00e9 Alexandre. Senhores de engenho judeus em Pernambuco colonial (1542-1654). 4\u00aa ed. Recife: 20-20 Comunica\u00e7\u00e3o e Editora, 1998. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">ROSSONI, Igor. Zen e a po\u00e9tica autorreflexiva de Clarice Lispector: uma literatura de vida e como vida. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">SANTANA, Jussilene. Martim Gon\u00e7alves: uma escola de teatro contra a prov\u00edncia. 2011. 776 f. Tese (Doutorado em Artes C\u00eanicas) &#8211; Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">SILVA, Jane Pessoa da. Ibsen no Brasil: historiografia, sele\u00e7\u00e3o de textos cr\u00edticos e cat\u00e1logo bibliogr\u00e1fico. 2007. 219 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) &#8211; Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2007, v. III (cat\u00e1logo bibliogr\u00e1fico).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">SOBREIRA, Caesar. Nordeste semita: ensaio sobre um certo Nordeste que em Gilberto Freyre tamb\u00e9m \u00e9 semita. S\u00e3o Paulo: Global, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">TOLLINI, Aldo. La cultura del t\u00e8 in Giappone e la ricerca della perfezione. Torino: Giulio Einaudi, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">TROUP, James. On the Japanese sotoba, or elemental stupa. Journal of the Royal Asiatic Society, v. 51, n. 4, p. 557-573, out. 1919.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">UEDA, Makoto. Matsuo Bash\u014d. New York: Twayne Publishers, 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">VAINFAS, Ronaldo. Jerusal\u00e9m colonial: judeus portugueses no Brasil holand\u00eas. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">VALLOR, Molly. Not seeing snow: Mus\u014d Soseki and medieval Japanese Zen. Leiden: Brill, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">WAKISAKA, Katsunori (coord.). Michaelis: dicion\u00e1rio pr\u00e1tico japon\u00eas-portugu\u00eas. S\u00e3o Paulo: Alian\u00e7a Cultural Brasil-Jap\u00e3o, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">WALEY, Arthur. The n\u014d plays of Japan. New York: Alfred A. Knopf, 1922.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Cavalcanti Lemos Imagem cedida por Paulo Gurgel Valente Nos primeiros s\u00e9culos da Am\u00e9rica portuguesa, a origem judaica de prestigiosas fam\u00edlias pernambucanas foi, enquanto necess\u00e1rio e poss\u00edvel, oculta por receio justific\u00e1vel de persegui\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o no Brasil e al\u00e9m-mar, tendo pouco menos que um par de dec\u00eanios e meio havido de toler\u00e2ncia religiosa neerlandesa. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":6880,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":22,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[3,111,16],"tags":[40,54],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6874"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6874"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6881,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6874\/revisions\/6881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}