{"id":6384,"date":"2021-08-19T17:43:00","date_gmt":"2021-08-19T20:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6384"},"modified":"2022-11-10T15:45:01","modified_gmt":"2022-11-10T18:45:01","slug":"elic-entrevista-felipe-medeiros-tradutor-de-o-inferno-das-garotas-do-autor-japones-yumeno-kyusaku-parte-1-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6384","title":{"rendered":"ELIC entrevista Felipe Medeiros, tradutor de &#8220;O inferno das garotas&#8221;, do autor japon\u00eas Yumeno Ky\u016bsaku \u2013 Parte 1"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"http:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/video-output-C3233A79-49E5-4F87-A7B0-367C7D93B0AF.mp3\"><\/audio><figcaption> Felipe Medeiros l\u00ea e comenta breve trecho do livro &#8220;O inferno das garotas&#8221; <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Perguntas feitas por: <\/strong>Agatha Garibe (contato@agathagaribe.com.br) e Amanda de Morais (amndmorais@gmail.com)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o do texto<\/strong>: Amanda Serafim (amandakss25@gmail.com), Maria Gabriela Pedrosa (mariagpedrosa@gmail.com) e Rayane S\u00e1tiro (satirorayane9@gmail.com).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Curadoras<\/strong>: Ang\u00e9lica Alencar e Paula Michima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Arte e edi\u00e7\u00e3o de \u00e1udio:<\/strong> Assucena Maria (assucena.ms@hotmail.com).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">\u274a<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A presente entrevista celebra o fim do primeiro semestre do grupo <strong>ELIC<\/strong> (Estudos de Linguagens, Identidades e Culturas), um dos subgrupos que est\u00e1 sob o guarda-chuva da curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o. O grupo surgiu no in\u00edcio de 2021, a partir de v\u00e1rios interesses, que a princ\u00edpio, n\u00e3o pareciam t\u00e3o afins, mas, que ao fim, tornou-se o que \u00e9 hoje: um grupo de estudos, bem como de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, promovendo quinzenalmente encontros no ambiente virtual a fim de discutir textos te\u00f3ricos sobre diversos temas inseridos na cultura japonesa, compreendendo quest\u00f5es caras aos conceitos de identidade e de cultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Algumas quest\u00f5es, no entanto, sempre rondaram o interesse do grupo, tais como: <em>de que maneira a identidade japonesa \u00e9 retratada pela pr\u00f3pria sociedade japonesa em contraponto \u00e0s suas representa\u00e7\u00f5es nas culturas ocidentais?; como a quest\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 retratada nas produ\u00e7\u00f5es culturais japonesas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Perante a essas interroga\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o apenas algumas, pensamos nossa atividade semestral voltada a dois temas que muito nos s\u00e3o caros: tradu\u00e7\u00e3o e g\u00eanero. Recebendo uma indica\u00e7\u00e3o da curadora Ang\u00e9lica Alencar, Felipe Medeiros e <em>O inferno das garotas<\/em> delinearam-se como concatenadores dessas duas tem\u00e1ticas e o projeto que se mostrou mais rico para n\u00f3s apresentarmos ao p\u00fablico foi por meio de uma entrevista, que ser\u00e1 dividida em duas partes, e divulgada aqui no site.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Felipe Medeiros \u00e9 formado em Letras-Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde tamb\u00e9m obteve t\u00edtulo de mestre e atualmente cursa o doutorado em Ci\u00eancia da Literatura. Desde a gradua\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m grande interesse em idiomas e atua como tradutor de ingl\u00eas, alem\u00e3o e japon\u00eas. Al\u00e9m dos trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o pela Laboralivros, \u00e9 autor de dois livros de fic\u00e7\u00e3o: <em>Sven<\/em> (2013), lan\u00e7ado pela editora musAbsurda, e <em>Hebefrenia<\/em> (2020), pela Urso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A obra <em>O Inferno das Garotas<\/em> (1936), de Yumeno Ky\u016bsaku, ainda in\u00e9dita no Brasil, traz uma escrita sens\u00edvel e sagaz sobre os pap\u00e9is de mulheres e meninas na sociedade japonesa do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O autor lhes d\u00e1 voz ao passo que nos mostra o porqu\u00ea de esse feminino estar atrelado ao tema da morte, ou ao \u201cinferno\u201d. Nessa primeira parte da entrevista, intermediada por Agatha Garibe, iremos observar, em ricos detalhes, o interesse de Felipe Medeiros pelo ato de traduzir, bem como pela obra j\u00e1 citada, e o autor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\" style=\"font-size:px\"><strong>&nbsp;<\/strong>\u274a<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\" style=\"font-size:30px\">Parte 1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>AGATHA GARIBE<\/strong>: <strong>Quem \u00e9 Felipe Medeiros e como se interessou pela \u00e1rea de tradu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FELIPE MEDEIROS<\/strong>: Antes de tudo, quero agradecer muito pela oportunidade de estar aqui conversando com pessoas t\u00e3o qualificadas sobre essa tradu\u00e7\u00e3o. Bem, eu nasci em S\u00e3o Paulo e, aos 10 anos, vim para a serra carioca, onde moro at\u00e9 hoje. Em 2011 entrei no curso de Letras-Literaturas na UFRJ, onde desenvolvi gosto por l\u00ednguas estrangeiras, a come\u00e7ar pelo latim e o grego, mat\u00e9rias obrigat\u00f3rias. Depois, fui estudar tamb\u00e9m alem\u00e3o, russo e japon\u00eas. Este \u00faltimo, cursei e me formei pelo Kumon. Meu interesse pela tradu\u00e7\u00e3o surgiu concomitante ao meu desejo de ser escritor (tenho dois livros publicados). N\u00e3o vejo como tarefas distintas, pois, no ato de tradu\u00e7\u00e3o, tal como o entendo, \u00e9 preciso haver muito de cria\u00e7\u00e3o e pesquisa, dois atributos fundamentais, tamb\u00e9m, para ser um ficcionista (de novo, tal como o entendo). Hoje em dia, estou no doutorado em letras na UFRJ, trabalhando com um autor dos EUA, Thomas Pynchon. Antes disso, tinha trabalhado com <em>O idiota<\/em>, de Dostoi\u00e9vski. Ou seja, sempre estive em contato com idiomas estrangeiros e acho que isso me impulsionou um tanto para a carreira de tradutor, que passei a admirar e vislumbrar ainda durante a gradua\u00e7\u00e3o. Afinal, a ideia de entrar em contato com outra l\u00edngua, que poder\u00edamos dizer ser o cerne mesmo de uma cultura, sempre me pareceu algo fascinante e lindo demais. Poder comunicar e distribuir esse amor atrav\u00e9s de minha l\u00edngua nativa \u00e9 algo que considero um dever meu, tanto na tradu\u00e7\u00e3o quanto na fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>AG<\/strong>: <strong>Qual foi o seu maior desafio na tradu\u00e7\u00e3o do livro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FM<\/strong>: Acho que com essa j\u00e1 responderei em parte tamb\u00e9m a pr\u00f3xima pergunta, porque a maior dificuldade foi n\u00e3o ter com quem dialogar. Foi um corpo a corpo muito dif\u00edcil e desgastante com o texto japon\u00eas, n\u00e3o s\u00f3 por ser um livro lan\u00e7ado h\u00e1 quase um s\u00e9culo, num momento muito complexo do Jap\u00e3o, com a ascens\u00e3o do ultranacionalismo e com a guerra quase a ponto de estourar, como tamb\u00e9m por Ky\u016bsaku ser extremamente peculiar, ao mesmo tempo mantendo uma compreens\u00e3o fluida do japon\u00eas, mas minando essa mesma fluidez com momentos, digamos, de suspens\u00e3o po\u00e9tica muito pr\u00f3prios e sutis. Minha sorte foi poder contar com minha professora de japon\u00eas do Kumon, Shoko Kishi, que muito me ajudou quando o texto parecia incompreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3806\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-1.jpg 1000w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-1-816x544.jpg 816w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption><strong>Figura 1: <\/strong>O livro O inferno das garotas, traduzido por Felipe Medeiros (Divulga\u00e7\u00e3o).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>AG<\/strong>: <strong>Em 2014, o livro O <em>inferno das garotas<\/em> foi traduzido para o espanhol. Voc\u00ea obteve inspira\u00e7\u00e3o na vers\u00e3o espanhola ou se entregou totalmente \u00e0 obra original?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FM<\/strong>: Ent\u00e3o, h\u00e1, pelo que eu e a editora Lua Bueno Cyr\u00edaco conseguimos localizar, apenas oito tradu\u00e7\u00f5es no Ocidente das obras de Yumeno Ky\u016bsaku. Seis delas s\u00e3o de contos e novelas traduzidos para o ingl\u00eas, que est\u00e3o esparsos em revistas ou em e-book na Amazon, e a muitos dos quais n\u00e3o consegui acesso. As outras duas s\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o espanhola de <em>Sh\u014djo jigoku<\/em>, que ficou <em>El infierno de las chicas<\/em>, lan\u00e7ado em 2014, e a tradu\u00e7\u00e3o francesa do romance mais famoso de Ky\u016bsaku, o <em>Dogura Magura<\/em>, traduzido para o franc\u00eas como <em>Dogra Magra<\/em>, em 2003, por Phillippe Picquer. Infelizmente, n\u00e3o conseguimos acesso ao livro, porque ficaria extremamente custoso compr\u00e1-lo (mais de 20 d\u00f3lares do livro e ainda mais 20 do frete!). Como a editora \u00e9 independente e n\u00e3o tinha como arcar com isso, resolvi embarcar sozinho na tradu\u00e7\u00e3o. \u00c9 sempre um risco, porque, atrav\u00e9s do di\u00e1logo com outra tradu\u00e7\u00e3o, pode-se encontrar muitas solu\u00e7\u00f5es interessantes. Por exemplo, Paulo C\u00e9sar de Souza, tradutor de Nietzsche e Freud, est\u00e1 sempre bem acompanhado de mais de uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e diversas tradu\u00e7\u00f5es, cada uma das quais com solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias que ele, \u00e0s vezes, coloca em suas notas. Mas, a despeito disso, espero ter feito um bom trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>AG: Como voc\u00ea conheceu as obras do autor Yumeno Ky\u016bsaku e por que essa foi a obra escolhida para traduzir para o portugu\u00eas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FM<\/strong>: Eu conheci atrav\u00e9s da Lua Bueno, uma das editoras chefe da Laboralivros. De in\u00edcio, pens\u00e1vamos em traduzir uma colet\u00e2nea de contos japoneses de tem\u00e1tica g\u00f3tica (tal como o entendemos no Ocidente), desde o s\u00e9culo XVIII at\u00e9 hoje em dia. Mas ela me deu outra op\u00e7\u00e3o, o Ky\u016bsaku, de quem ela tinha ouvido falar em suas pesquisas e de quem nada havia traduzido ainda no contexto lus\u00f3fono. Comparando os dois textos, a paix\u00e3o foi instant\u00e2nea, n\u00e3o sei por qu\u00ea, pelo estilo de Ky\u016bsaku. Como <em>Dogura Magura<\/em> \u00e9 um livro longo, decidimos por <em>Sh\u014djo jigoku<\/em>, que \u00e9 menor e tem a peculiaridade de ter sido lan\u00e7ado pouco antes de o autor morrer de hemorragia cerebral repentina, enquanto conversava na sala de sua casa com um amigo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-medium is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-2-258x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3807\" width=\"258\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-2-258x300.jpg 258w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-2.jpg 529w\" sizes=\"(max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><figcaption><strong>Figura 2:<\/strong> Editora Laboralivros (Divulga\u00e7\u00e3o).<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>AG:<\/strong> O autor foi um monge budista. Voc\u00ea acredita que a filosofia budista est\u00e1 impl\u00edcita na obra?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FM:<\/strong> Yumeno Ky\u016bsaku foi monge budista por cerca de dois anos na d\u00e9cada de 1920. Creio que foi uma maneira que ele encontrou de fugir do trabalho do campo, a que o pai o obrigara antes mesmo de terminar a faculdade de letras de Kei\u014d (que aparece no livro, ali\u00e1s). Eu acredito que a vida mon\u00e1stica deu a ele algo que faltou em muitos de seus contempor\u00e2neos, tanto por, como dito, estarem num tempo ca\u00f3tico, quanto por n\u00e3o saberem mesmo como agir nesse tempo. \u00c9, sem d\u00favida, um sentimento de desamparo muito compartilhado por outros pensadores e escritores europeus, como Walter Benjamin, Erich Auerbach e Franz Kafka. Em meio a isso, \u00e9 muito f\u00e1cil, talvez, se render totalmente ao absurdo de uma maneira cada vez mais intensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O caminho escolhido por Ky\u016bsaku, eu acredito, foi outro, embora seja uma das t\u00f4nicas de sua escrita o flerte com o absurdo, especialmente na forma do <em>nansensu <\/em>(n\u00e3o\/sem sentido), sobre o qual ele tem um texto de 1929, lan\u00e7ado na revista <em>Ry\u014dki<\/em> (<em>Bizarro<\/em>, ou literalmente <em>Ca\u00e7a ao estranho<\/em>). \u00c9 um caminho sutilmente diferente, porque n\u00e3o me parece ter aquele fetiche pelo exc\u00eantrico em si, muito caracter\u00edstico da literatura juvenil masculina da \u00e9poca. Em vez de descrever situa\u00e7\u00f5es exc\u00eantricas, Ky\u016bsaku insere o <em>nansensu<\/em> em meio a uma literatura extremamente engajada com quest\u00f5es sociais, como a doen\u00e7a e os hospitais psiqui\u00e1tricos, a situa\u00e7\u00e3o de pessoas do interior que v\u00e3o para a capital. Assim, o sem sentido de suas narrativas \u00e9 apenas um elemento dentro de um todo concernente, a meu ver, \u00e0 crescente compaix\u00e3o que ele tinha para com todos os seres e que foi mais cultivada nos anos em que foi monge. N\u00e3o \u00e0 toa, esse mesmo autor tamb\u00e9m escreveu contos infantis (alguns dos quais foram adicionados ao fim do livro). Ele parecia querer atingir todas as idades com essa e outras mensagens, convenc\u00ea-las a seguirem outro caminho que n\u00e3o a guerra, a segrega\u00e7\u00e3o, o \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"781\" height=\"485\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3811\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-5.png 781w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-5-300x186.png 300w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/img-5-768x477.png 768w\" sizes=\"(max-width: 781px) 100vw, 781px\" \/><figcaption><strong>Figura 3: <\/strong>Fotos do autor japon\u00eas Yumeno Ky\u016bsaku.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>AG: O que voc\u00ea aprendeu ao realizar a tradu\u00e7\u00e3o do livro e qual parte da hist\u00f3ria mais te chamou aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>FM:<\/strong> Aprendi algo surpreendente: a hist\u00f3ria (o passado, o presente, o futuro) nunca \u00e9 t\u00e3o simples quanto talvez quis\u00e9ssemos que ela fosse. \u00c9 muito f\u00e1cil falar simplesmente que as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX japon\u00eas foram protagonizadas por homens que objetificavam as mulheres, obrigando-as a uma vida de reclus\u00e3o dom\u00e9stica, enquanto os homens serviam o Estado. Yumeno Ky\u016bsaku \u00e9 uma voz fora da curva e, quem sabe, por isso foi apagado, invisibilizado pelas grandes editoras, que n\u00e3o quiseram, ou n\u00e3o correram atr\u00e1s, ou n\u00e3o aceitaram, uma voz que n\u00e3o comungasse com as ideias preconcebidas que tinham de um Jap\u00e3o exc\u00eantrico e ainda super atado \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es milenares. Os leitores encontrar\u00e3o nesse livro, cujo t\u00edtulo pode ser um pouco enganador, n\u00e3o uma obra lasciva que apresenta mulheres em situa\u00e7\u00f5es humilhantes, nem descri\u00e7\u00f5es que sigam nesse sentido, mas, sim, um livro que d\u00e1 integralmente voz a essas personagens tamb\u00e9m apagadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">S\u00e3o tr\u00eas contos em forma de cartas. O primeiro \u00e9 escrito por um homem; o segundo, por uma mulher que trabalha de condutora de \u00f4nibus (parecido com os nossos cobradores); e o terceiro, por uma menina que est\u00e1 prestes a se formar no ensino m\u00e9dio. Em todos eles as mulheres s\u00e3o protagonistas, mas apenas no primeiro conto a voz que ouvimos n\u00e3o \u00e9 delas diretamente, mas sim de um homem, e mais, um m\u00e9dico. Ent\u00e3o, a rigor, nunca temos acesso \u00e0 voz da mulher, porque a carta toda se baseia nas mem\u00f3rias de um homem. E ainda assim, existem brechas, momentos em que ele pr\u00f3prio v\u00ea suas certezas abaladas, v\u00ea-se diante de situa\u00e7\u00f5es em que ele n\u00e3o consegue dar sentido. \u00c9 esse, talvez, o maior sentido do <em>nansensu<\/em> em Ky\u016bsaku: a pr\u00f3pria falta de sentido que se embrenha em nosso cotidiano de diversas maneiras. Quando ela \u00e9 transposta \u00e0 literatura, parece algo excepcional, mas, \u00e0s vezes, basta darmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pequenas e grandes coisas que nos surgem diariamente, para entendermos que n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o distante assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A minha parte preferida do livro \u00e9 quando a protagonista do terceiro conto se v\u00ea diante do infinito e do nada. Foi em trechos assim, que abundam no livro, que eu percebi, tamb\u00e9m, a semelhan\u00e7a com muitas autorias femininas, a exemplo de Clarice Lispector, que nem suspeitavam da proximidade que tinham com um escritor japon\u00eas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Parte 2 da entrevista <a href=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=3932\" class=\"ek-link\">aqui<\/a>!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">\u274a<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contatos de Felipe Medeiros:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>E-mail: <\/strong><a href=\"mailto:felipemp@hotmail.com\">felipemp93@hotmail.com<\/a><a href=\"mailto:felipemp@hotmail.com\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Facebook: <\/strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/haruka.shizukawa\/\">https:\/\/www.facebook.com\/haruka.shizukawa\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Instagram: <\/strong>@sometwothree<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Contatos da Editora Laboralivros:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Twitter<\/strong>: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/laboralivros\">https:\/\/twitter.com\/laboralivros<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/laboralivros\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Facebook<\/strong>: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/laboralivros\">https:\/\/www.facebook.com\/laboralivros<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><strong>Instagram<\/strong>: @laboralivros<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntas feitas por: Agatha Garibe (contato@agathagaribe.com.br) e Amanda de Morais (amndmorais@gmail.com) Produ\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o do texto: Amanda Serafim (amandakss25@gmail.com), Maria Gabriela Pedrosa (mariagpedrosa@gmail.com) e Rayane S\u00e1tiro (satirorayane9@gmail.com). Curadoras: Ang\u00e9lica Alencar e Paula Michima. Arte e edi\u00e7\u00e3o de \u00e1udio: Assucena Maria (assucena.ms@hotmail.com). \u274a A presente entrevista celebra o fim do primeiro semestre do grupo ELIC [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3830,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":8,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[11],"tags":[40,54,55],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6384"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6384"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6385,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6384\/revisions\/6385"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3830"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}