{"id":6276,"date":"2022-10-20T11:28:52","date_gmt":"2022-10-20T14:28:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6276"},"modified":"2022-10-20T11:28:52","modified_gmt":"2022-10-20T14:28:52","slug":"artigo-de-opiniao-pernambuco-e-o-japao-gilberto-freyre-e-a-inassimilabilidade-japonesa-na-assembleia-constituinte-de-1946","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=6276","title":{"rendered":"ARTIGO DE OPINI\u00c3O | Pernambuco e o Jap\u00e3o: Gilberto Freyre e a &#8220;inassimilabilidade&#8221; japonesa na Assembleia Constituinte de 1946"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por: <strong>Rafael Cavalcanti Lemos<\/strong>. Juiz de direito do Tribunal de Justi\u00e7a de Pernambuco. Pesquisador associado \u00e0 Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o da Coordenadoria de Estudos da \u00c1sia do Centro de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade Federal de Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized caption-align-center\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/20150105_00114_652.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6277\" width=\"323\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/20150105_00114_652.jpg 652w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/20150105_00114_652-196x300.jpg 196w\" sizes=\"(max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/cargocollective.com\/jonathasdeandrade\/museu-do-homem-do-nordeste\" class=\"ek-link\">https:\/\/cargocollective.com\/jonathasdeandrade\/museu-do-homem-do-nordeste<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Numa \u00e9poca de pseudo-superioridades e -purezas raciais a justificar desigualdades de toda ordem, um jovem cientista social pernambucano, ap\u00f3s o contato com as ideias de um professor alem\u00e3o numa universidade nova-iorquina, reinterpretou positivamente numa obra cl\u00e1ssica a mesti\u00e7agem brasileira, criando um mito nacional para o qual ainda hoje n\u00e3o h\u00e1 substituto \u00e0 altura. Tal mito, por sua pr\u00f3pria natureza (de valoriza\u00e7\u00e3o da mesti\u00e7agem), n\u00e3o poderia ser excludente: eleito deputado federal, o autor de Casa-Grande e Senzala teve a oportunidade de bem-sucedidamente defender, na Constituinte de 1946, a aptid\u00e3o do meio brasileiro \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de culturas de todo o mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A japonesa inclusive, reputada &#8220;inassimil\u00e1vel&#8221;, dentre outros, pelo deputado federal Miguel Couto Filho, cujo pai concebera as cotas de imigra\u00e7\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o de 1934. No projeto da de 1946, o par\u00e1grafo 16 do artigo 164 dispunha: &#8220;A imigra\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser limitada ou proibida em raz\u00e3o da proced\u00eancia. A entrada de imigrantes estar\u00e1 condicionada \u00e0 sua capacidade f\u00edsica e civil, assim como \u00e0 garantia da sua assimila\u00e7\u00e3o.&#8221;. A emenda 3.165, assinada pelo referido Miguel Couto Filho e pelo deputado federal Jos\u00e9 Augusto (reproduzindo a 2.043, do deputado federal Fernandes T\u00e1vora), era mais precisa quanto ao destinat\u00e1rio: &#8220;\u00c9 proibida a entrada no pa\u00eds de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer proced\u00eancia.&#8221;. A substitutiva 3.340, por sua vez, cujos autores foram oito constituintes paulistas, dizia &#8220;[i]ncumb[ir] \u00e0 Uni\u00e3o a pol\u00edtica de restri\u00e7\u00e3o por motivos eug\u00eanicos&#8221;, sendo &#8220;livre a imigra\u00e7\u00e3o de origem americana ou europeia&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Escreve Bruno Naomassa Hayashi (2022, p. 5-6), doutorando em Sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo: &#8220;Dentro do tema da assimila\u00e7\u00e3o, a principal oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o de &#8216;inassimilabilidade&#8217; partir\u00e1 do soci\u00f3logo pernambucano Gilberto Freyre (UDN-PE). Ele encabe\u00e7a a emenda 1.340, que sugere a supress\u00e3o do trecho do artigo 164, \u00a7 16, que trata da garantia da assimila\u00e7\u00e3o como requisito de entrada no pa\u00eds [\u2026] A vis\u00e3o de Freyre n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7os, assim, para essencializa\u00e7\u00f5es nem para determina\u00e7\u00f5es do destino do imigrante no Brasil [\u2026] Ap\u00f3s sugerir a supress\u00e3o de par\u00e1grafos do projeto que restringiam a atua\u00e7\u00e3o profissional de imigrantes e ap\u00f3s criticar o preconceito racial e de cor contra os negros [\u2026], passa \u00e0 cr\u00edtica do preconceito contra os estrangeiros ou &#8216;neobrasileiros&#8217;, como ele prefere. [\u2026] Freyre, na sequ\u00eancia do discurso, delineia com apoio entusiasmado de Aureliano Leite uma concep\u00e7\u00e3o mais aberta da nacionalidade brasileira, que ganhar\u00e1 grande influ\u00eancia na d\u00e9cada de 1950. Trata-se de uma forma muito particular de \u2018assimila\u00e7\u00e3o&#8217;, em que se fomenta a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura nacional &#8216;plural ou pluralista'&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um novo projeto de Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentado. O par\u00e1grafo 16 do artigo 164, em mais liberal reda\u00e7\u00e3o, torna-se o artigo 161: &#8220;A sele\u00e7\u00e3o, entrada, distribui\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o de imigrantes ficar\u00e3o sujeitas, na forma da lei, \u00e0s exig\u00eancias e condi\u00e7\u00f5es determinadas pelo interesse nacional.&#8221;. Prossegue Hayashi (2022, p. 7): &#8220;Esse artigo do novo projeto seria logo desafiado, por\u00e9m, por requerimento de destaque para aprova\u00e7\u00e3o da emenda 3.165, [\u2026] contando com 199 assinaturas, seguindo, ent\u00e3o, para uma acirrada vota\u00e7\u00e3o no dia 27 de agosto de 1946. [\u2026] A proibi\u00e7\u00e3o constitucional da &#8216;entrada no pa\u00eds de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer proced\u00eancia&#8217; cai, assim, por apenas um voto.&#8221;. A proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o japonesa foi rejeitada por 100 contra 99 votos, proferido o de desempate pelo presidente da Assembleia, o (como Gilberto Freyre) exilado da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 Fernando de Melo Viana.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">ASSEMBLEIA CONSTITUINTE. Anais da Assembleia Constituinte [de 1946] organizados pela reda\u00e7\u00e3o de anais e documentos parlamentares. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1946-1951, 26 v.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>HAYASHI, Bruno Naomassa. Metamorfoses do amarelo: a imigra\u00e7\u00e3o japonesa do &#8220;perigo amarelo&#8221; \u00e0 &#8220;democracia racial&#8221;. Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais, v. 37, n. 108, p. 1-18, 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Rafael Cavalcanti Lemos. Juiz de direito do Tribunal de Justi\u00e7a de Pernambuco. Pesquisador associado \u00e0 Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o da Coordenadoria de Estudos da \u00c1sia do Centro de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade Federal de Pernambuco. 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