{"id":5771,"date":"2022-06-21T17:20:02","date_gmt":"2022-06-21T20:20:02","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5771"},"modified":"2022-06-22T20:41:19","modified_gmt":"2022-06-22T23:41:19","slug":"a-vida-cor-de-rosa-de-akihiro-miwa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5771","title":{"rendered":"A Vida Cor de Rosa de Akihiro Miwa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">GT de G\u00eanero e Sexualidade e  GT de Tradu\u00e7\u00e3o | Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Reda\u00e7\u00e3o: Pedro Malta Chicaroni<br>Revis\u00e3o: Amanda de Morais Silva, Felipe Medeiros e Su\u00e9llen Gentil<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em celebra\u00e7\u00e3o ao M\u00eas do Orgulho LGBTQIA+, o GT de G\u00eanero e Sexualidade e o GT de Tradu\u00e7\u00e3o da Curadoria do Jap\u00e3o da CE\u00c1SIA prepararam a publica\u00e7\u00e3o de textos especiais sobre figuras emblem\u00e1ticas da hist\u00f3ria das dissid\u00eancias sexuais e de g\u00eanero no contexto japon\u00eas. Para abrir essa s\u00e9rie de textos, trataremos da vida e da prol\u00edfica carreira de Akihiro Miwa (1935- ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Ao observar Akihiro, precisamos expandir nossa perspectiva para melhor compreender a multiplicidade e o dinamismo da sua express\u00e3o de g\u00eanero e de sua sexualidade. Essa expans\u00e3o se mostra necess\u00e1ria devido \u00e0 tend\u00eancia do discurso corrente de depender do uso de categorias amplas para retratar o n\u00e3o-normativo no campo do g\u00eanero e das sexualidades. Quando falamos de uma pessoa como Akihiro, que se faz alheia a esses discursos, gera-se uma curiosidade relativa a como enxerg\u00e1-la a partir das categorias de g\u00eanero conhecidas, mesmo apesar das possibilidades de n\u00e3o-defini\u00e7\u00e3o e de individualiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia <em>Queer<\/em> que os estudos de g\u00eanero nos oferecem. Para bem apreendermos a viv\u00eancia e a obra de Akihiro, precisamos nos afastar dessa curiosidade que, em seu caso, n\u00e3o se mostra uma forma prop\u00edcia de abordagem. N\u00e3o foram poucas as tentativas de situar Akihiro dentro da terminologia <em>Queer<\/em> de uso corrente, desde <em>Sister Boy<\/em><sup>1<\/sup> \u00e0 Mulher Trans, passando por <em>Neo-Onnagata<\/em><sup>2<\/sup> e <em>Drag Queen<\/em>. Todas essas hip\u00f3teses parecem em nada ter chamado a aten\u00e7\u00e3o de Akihiro, que sempre se manteve indiferente a essa dificuldade terminol\u00f3gica. Optamos neste texto evitar pronomes pessoais para se referir a Akihiro, tentando ao m\u00e1ximo replicar uma relativa neutralidade de g\u00eanero que a l\u00edngua japonesa permite. Utilizaremos termos que denotam g\u00eanero apenas em cita\u00e7\u00f5es que os empreguem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Para aqueles que precisam de uma defini\u00e7\u00e3o mais precisa para a express\u00e3o de g\u00eanero de Akihiro, deixamos as palavras Jakucho\u0304 Setouchi (1922-2021), monja budista e escritora, ao apresentar Akihiro Miwa, de quem ela era pr\u00f3xima, em uma de suas palestras:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Hoje temos conosco uma pessoa especial. Sabe, <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Kuan_Yin\" class=\"ek-link\">Kannon<\/a><\/em><sup>3<\/sup> n\u00e3o \u00e9 nem homem, nem mulher. Certo? <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bodisatva\" class=\"ek-link\">Bodisatvas<\/a> n\u00e3o t\u00eam g\u00eanero. Sendo assim, hoje est\u00e1 aqui Kannon em vida. Pode vir, Kannon! (SETOUCHI, 2015)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<ol><li><strong>A apari\u00e7\u00e3o de <em>Obake<\/em><sup>4<\/sup> em Ginza: \u201cO <em>Sister Boy<\/em>\u201d do Gin-Pari<\/strong><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em torno do ano de 1956, come\u00e7aram a circular diversos rumores sobre um inusitado acontecimento nas ruas do bairro de Ginza, em T\u00f3quio. Diversos pedestres relataram ter testemunhado a passagem de uma figura elaboradamente maquiada, vestida por inteiro de roupas de seda roxa e que caminhava cantarolando. A extravag\u00e2ncia desta cena levou alguns transeuntes a se juntarem a essa caminhada, sendo levados nesta esp\u00e9cie de marcha por Ginza at\u00e9 o <em>Gin-Pari <\/em>(Paris Prateada), uma casa de shows em estilo cabar\u00e9 da regi\u00e3o. O evento ganhou certa notabilidade na m\u00eddia, chegando a ser citado em jornais e revistas de publica\u00e7\u00e3o semanal. Uma dessas not\u00edcias relatava que \u201chavia uma linda <em>Obake<\/em> \u00e0 solta por Ginza\u201d. Essa foi uma das primeiras grandes apari\u00e7\u00f5es na imprensa da \u00e9poca de Akihiro Maruyama, que hoje conhecemos como Akihiro Miwa, um pren\u00fancio da popularidade que obteria no ano seguinte, com seu primeiro grande <em>hit<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Maruyama come\u00e7ou sua carreira musical em 1952, ao fazer a abertura de um show da ex-integrante do renomado teatro musical feminino <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Takarazuka_Revue\" class=\"ek-link\">Takarazuka Revue<\/a>, Kaoru Tachibana (1912-1963). A cantora foi um dos nomes principais da populariza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero <em>Chanson<\/em> no Jap\u00e3o, e \u00e9 sob recomenda\u00e7\u00e3o dela que Akihiro \u00e9 aceito no <em>Gin-Pari<\/em>, primeiramente enquanto aprendiz, mas sua estreia como profissional ocorreu pouco depois, em 1954. No ano seguinte, 1955, devido \u00e0 popularidade crescente de novas casas de show da regi\u00e3o, o <em>Gin-Pari<\/em> estava passando por uma crise financeira e possivelmente precisaria encerrar suas opera\u00e7\u00f5es. Neste contexto de dificuldade, Akihiro se volta para a cultura dos sal\u00f5es da <em>Belle-\u00c9poque<\/em> francesa, buscando recriar seu clima de prosperidade no Jap\u00e3o do p\u00f3s-guerra. Tendo em mente refer\u00eancias diversas como os deuses dos mitos gregos e os <em>furisode<\/em><sup>5<\/sup> dos jovens do per\u00edodo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Per%C3%ADodo_Edo\" class=\"ek-link\">Edo<\/a> e do per\u00edodo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Per%C3%ADodo_Azuchi-Momoyama\" class=\"ek-link\">Azuchi-Momoyama<\/a><sup>6<\/sup>, Akihiro buscou desenvolver um estilo andr\u00f3gino de vestimenta que mesclasse refer\u00eancias da cultura japonesa com a moda ocidental (KAMATA, 2009). Seu intuito principal era contrariar a sobriedade que dominava a cultura do p\u00f3s-guerra, dando destaque ao aspecto da performance e do espet\u00e1culo em shows mais suntuosos. A marcha por Ginza narrada acima \u00e9 o primeiro resultado desta nova empreitada de Akihiro em sua carreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 em 1957 que a popularidade de Akihiro aumenta consideravelmente devido \u00e0 sua<br>vers\u00e3o japonesa da can\u00e7\u00e3o \u201c<em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jqPWiwbUM-s\" class=\"ek-link\">M\u00e9 Qu\u00e9, M\u00e9 Qu\u00e9<\/a><\/em>\u201d, originalmente interpretada pelo cantor franc\u00eas Joe Dassin (1938-1980). A vers\u00e3o de Akihiro foi muito famosa, rendendo-lhe shows lotados e destaque na m\u00eddia. No mundo da <em>Chanson<\/em> japonesa, dominado pela influ\u00eancia do Takarazuka, cujo lema era \u201cde forma pura, correta e bela\u201d, a vers\u00e3o de Akihiro de \u201c<em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0-aY_DQTeZU\" class=\"ek-link\">M\u00e9 Qu\u00e9, M\u00e9 Qu\u00e9<\/a><\/em>\u201d foi revolucion\u00e1ria em seu uso de linguajar cotidiano e vulgar na letra, que descreve a rela\u00e7\u00e3o entre um marinheiro e uma prostituta em uma cidade portu\u00e1ria (SATO\u0304, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>A popularidade crescente de Maruyama levou a pol\u00eamicas em jornais, que veicularam opini\u00f5es diversas sobre Akihiro. Na edi\u00e7\u00e3o de 2 de Junho, o Seman\u00e1rio Yomiuri descreve que Akihiro \u201cvestia pantalonas de seda violeta, uma camisa de seda branca rendada e um palet\u00f3 de casimira preto. Sobre o cachecol de seda branca, um rosto com maquiagem intensa, grandes olhos sombreados e l\u00e1bios vermelhos\u201d (KAMATA, 2009). Al\u00e9m disso, afirmam que \u201cAkihiro Maruyama provoca tr\u00eas incertezas: sua idade, sua nacionalidade e seu g\u00eanero\u201d. J\u00e1 o Seman\u00e1rio Shincho\u0304 de 29 de Julho n\u00e3o foi t\u00e3o neutro, afirmando que sua \u201ccombina\u00e7\u00e3o de um blusa branca com ares de Gr\u00e9cia e uma meia-cal\u00e7a preta era o mau gosto encarnado\u201d e que Akihiro \u201ctinha originalidade, mas era vulgar demais\u201d. Outras publica\u00e7\u00f5es chegaram a afirmar que Akihiro \u201cn\u00e3o deveria ser bom filho\u201d e que \u201cparecia uma pessoa sem amigos\u201d (KAMATA, 2009). O escritor e futuro governador de T\u00f3quio, Shintaro\u0304 Ishihara (1932-2022), que estava no \u00e1pice de sua popularidade devido \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o para o cinema de um de seus livros, chegou a afirmar: \u201cEu odeio <em>konnyaku<\/em><sup>7<\/sup> e os <em>okama<\/em><sup>8<\/sup> , me d\u00e3o calafrios\u201d (KAMATA, 2009).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"478\" height=\"715\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Imagem-Texto-Vida-Cor-de-Rosa-de-Akihiro-Miwa.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5775\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Imagem-Texto-Vida-Cor-de-Rosa-de-Akihiro-Miwa.png 478w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Imagem-Texto-Vida-Cor-de-Rosa-de-Akihiro-Miwa-201x300.png 201w\" sizes=\"(max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><figcaption>Foto Akihiro em performance de 1957. <br>Fonte: https:\/\/chocoramastudio.hatenadiary.org\/<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>2. <strong>O Nascimento de Shingo Maruyama, Nagasaki 1935<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Foi na cidade de Nagasaki, em 15 de maio de 1935, onde nasceu Shingo Maruyama, que depois adotaria o nome art\u00edstico Akihiro Miwa. Os pais de Shingo eram donos de um caf\u00e9 em estilo ocidental, que ficava em um dos distritos de prazeres mais antigos da regi\u00e3o, o distrito Maruyama, que existia desde meados do s\u00e9culo XVII. A sua m\u00e3e biol\u00f3gica, propriet\u00e1ria do caf\u00e9, veio a falecer quando Shingo tinha apenas 3 anos de idade. Seu pai se casou novamente pouco depois com uma costureira formada em um instituto de Corte e Costura em Xangai, que era versada tanto na produ\u00e7\u00e3o de roupas ocidentais quanto de vestu\u00e1rio tradicional japon\u00eas. As vestimentas dessa sua m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o parecem ter sido influentes no desenvolvimento do senso est\u00e9tico de Akihiro, que j\u00e1 narrou suas mem\u00f3rias destes \u201cvestidos feitos a m\u00e3o em tecidos pomposos como o tafet\u00e1 e o crepe da China\u201d (MIWA <em>apud <\/em>SATO\u0304, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Antes da Segunda Guerra, a cidade portu\u00e1ria de Nagasaki era um dos centros comerciais mais importantes do Jap\u00e3o. Historicamente, foi uma cidade japonesa internacionalizada devido \u00e0 sua localiza\u00e7\u00e3o privilegiada, que a tornou essencial para o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es comerciais entre o Jap\u00e3o e outros pa\u00edses. A cidade j\u00e1 tinha grande contato com o exterior mesmo durante o per\u00edodo pr\u00e9-moderno, quando recebia embarca\u00e7\u00f5es da China, Coreia, Portugal e da Holanda. Esse clima de internacionaliza\u00e7\u00e3o apenas cresceu ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o Meiji e a abertura dos portos japoneses para outros pa\u00edses do Ocidente. \u00c9 nesse contexto que Shingo viveu seus primeiros anos de vida, experimentando um pouco desse influxo cultural na pr\u00f3spera Nagasaki do entreguerras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Com o in\u00edcio da guerra do Pac\u00edfico (1941-1945), o acesso ao oceano, que nos tempos de paz havia feito da cidade um centro cultural, tornou-a um ponto estrat\u00e9gico importante para as tropas japonesas. Nesta Nagasaki militarizada, o sentimento xen\u00f3fobo imperava, o que levou filmes e m\u00fasicas estrangeiros a tornarem-se mal vistos e de dif\u00edcil acesso. O clima de viol\u00eancia e opress\u00e3o na cidade chegou ao ponto em que soldados batiam em mulheres que se vestiam de forma chamativa e levavam pessoas para interrogat\u00f3rios por ouvirem m\u00fasica (SATO\u0304, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Em fevereiro de 1945, a madrasta de Akihiro faleceu de causas naturais agravadas pelo estresse da condi\u00e7\u00e3o da guerra. Cinco meses depois, Nagasaki foi atingida pela bomba at\u00f4mica. Akihiro, seu pai e seus irm\u00e3os sobreviveram, por\u00e9m tiveram de lidar com a perda de todos seus familiares por parte de m\u00e3e. As experi\u00eancias do per\u00edodo de guerra levaram Akihiro a desenvolver uma avers\u00e3o pelo militarismo e a adotar uma postura pacifista, que \u00e9 tema de seu livro de 2005, <em>Sensou to Heiwa Ai no Messeeji <\/em>(Guerra e Paz: Uma Mensagem de Amor).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Alguns anos ap\u00f3s o fim da guerra, Maruyama pediu permiss\u00e3o a seu pai para cursar o ensino m\u00e9dio em T\u00f3quio, onde se matricularia em segredo em uma escola de m\u00fasica, na qual cursou apenas dois semestres. Aos dezesseis anos, come\u00e7ou a trabalhar em um bar voltado para o p\u00fablico gay, onde conheceu <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Yukio_Mishima\" class=\"ek-link\">Yukio Mishima<\/a> (1925-1970), com quem criou uma rela\u00e7\u00e3o de amizade e, futuramente, de colabora\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>3. <strong>Outras Faces de Akihiro &#8211; O Teatro e o Cinema<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m de sua carreira na m\u00fasica, Akihiro tamb\u00e9m teve muito sucesso no teatro. Dentre as diversas produ\u00e7\u00f5es das quais participou, devemos destacar a pe\u00e7a <em>Kegawa no Marie<\/em> (Marie do Casaco de Pele), dirigida e escrita por Shu\u0304ji Terayama (1935-1983), que foi encenada pela primeira vez em 1967. Terayama foi um dos grandes nomes do teatro do p\u00f3s-guerra juntamente com sua trupe de teatro <em><a href=\"https:\/\/artigos.wiki\/blog\/en\/Tenj%C5%8D_Sajiki\" class=\"ek-link\">Tenjo\u0304 Sajiki<\/a><\/em>, que alcan\u00e7ou notoriedade internacional e \u00e9 considerada pioneira no cen\u00e1rio do teatro do p\u00f3s-guerra japon\u00eas. O papel da protagonista foi dado a Akihiro, para quem a personagem fora concebida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Com o sucesso de Akihiro em <em>Kegawa no Marie<\/em>, Mishima lhe pede que protagonize sua adapta\u00e7\u00e3o para o teatro de <em>Kurotokage<\/em> (Lagarto Negro), narrativa do renomado escritor de mist\u00e9rio Edogawa Ranpo (1894-1965). A pe\u00e7a j\u00e1 havia entrado em cartaz antes, em 1962, tendo sido protagonizada pela atriz Yaeko Mizutani (1905-1979), mas, depois de sua sa\u00edda do elenco, demorou a retornar aos palcos devido \u00e0 dificuldade de encontrar um substituto para Yaeko. A pe\u00e7a veio a ser reencenada com Akihiro em 1968 e tornou-se o papel mais marcante de sua carreira. O sucesso desta segunda representa\u00e7\u00e3o foi tamanho que, ao fim da temporada, foi feita uma apresenta\u00e7\u00e3o especial da pe\u00e7a no Kabukiza, um dos mais prestigiosos teatros de todo o Jap\u00e3o (TOYODA, 2013). Na pe\u00e7a, Akihiro interpreta o papel da Lagarto Negro<sup>9<\/sup>, uma criminosa obcecada por beleza que tenta sequestrar a filha de um magnata. Devido \u00e0 sua popularidade, Akihiro revisitou esse papel diversas vezes, reencenando a pe\u00e7a mesmo depois da morte de Mishima. A \u00faltima representa\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a que contou com a sua participa\u00e7\u00e3o foi no ano de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Akihiro j\u00e1 havia participado de alguns filmes em pap\u00e9is pequenos, mas \u201cLagarto Negro\u201d rendeu-lhe seu primeiro grande papel no cinema. Em 1968, no mesmo ano em que protagoniza a pe\u00e7a pela primeira vez, Akihiro estrela no filme <em>Kurotokage<\/em>, dirigido por Kinji Fukasaku e baseado na vers\u00e3o para teatro de Mishima. O filme tamb\u00e9m conta com a participa\u00e7\u00e3o especial do autor em uma das cenas. Em 1969, Fukasaku dirigiu outro filme que contava com Akihiro no papel principal, <em>Kurobara no Yakata <\/em>(A Mans\u00e3o da Rosa Negra). Miwa tamb\u00e9m tem um papel de destaque no filme <em>Nihonjin no Heso<\/em> (O Umbigo dos Japoneses) de 1977, em que interpreta um papel masculino. O filme \u00e9 um musical c\u00f4mico que conta com dire\u00e7\u00e3o de Eizo\u0304 Sugawa (1930-1989) e \u00e9 baseado em uma pe\u00e7a de Hisashi Inoue (1934-2010), um dramaturgo famoso da \u00e9poca. Mais recentemente, Akihiro trabalhou na dublagem de alguns filmes animados, dando voz \u00e0 Moro em <em>Mononokehime<\/em> (Princesa Mononoke) de 1999, \u00e0 bruxa de <em>Hauru no Ugoku Shiro<\/em> (O Castelo Animado) de 2004, e a Arceus em um dos filmes da franquia Pok\u00e9mon.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br>Para al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o, Akihiro tamb\u00e9m escreveu diversos livros de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. O primeiro e mais famoso deles \u00e9 o <em>Murasaki no Rirekisho<\/em> (O Curr\u00edculo Roxo) de 1968, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de autobiografia. O livro teve in\u00fameras reedi\u00e7\u00f5es desde ent\u00e3o, mas sua primeira edi\u00e7\u00e3o continha um texto de apresenta\u00e7\u00e3o feito por Mishima. Entre os anos de 2003 e 2020, Akihiro tamb\u00e9m apresentou um programa de r\u00e1dio intitulado <em>Barairo no Nichiyo\u0304bi<\/em> (Domingo Cor de Rosa), em refer\u00eancia ao nome em japon\u00eas da m\u00fasica <em>La Vie en Rose<\/em>, hit de Edith Piaf que tamb\u00e9m fazia parte do seu repert\u00f3rio de <em>Chanson<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"\u7f8e\u8f2a\u660e\u5b8f (Akihiro Miwa) - \u9ed2\u8725\u8734 (Kurotokage) \u306e\u6b4c (Movie Theme Song) - Lyrics \/ Paroles \/ Sing along (1968)\" width=\"616\" height=\"347\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fczrR-YBnDQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Colet\u00e2nea de cenas do filme <em>Kurotokage<\/em> (1968), ao som de sua m\u00fasica tema <em>Kurotokage no Uta<\/em><br>(Can\u00e7\u00e3o da Largarto Negro), interpretada por Akihiro. O v\u00eddeo disponibiliza legendas em portugu\u00eas.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Do <em>frisson<\/em> provocado em sua apari\u00e7\u00e3o intrigante em Ginza, passando pelas performances em bares, filmes, teatros, \u00e0 dublagem e vestimenta, podemos ter uma pista sobre a densidade de compet\u00eancias e a intensidade da voca\u00e7\u00e3o de Akihiro. Os artistas do p\u00f3s-guerra tinham para si a dif\u00edcil tarefa de reconstruir a sensibilidade de um Jap\u00e3o desestabilizado. Ao longo dos seus quase 70 anos de carreira, Miwa n\u00e3o s\u00f3 participa dessa reconstru\u00e7\u00e3o, como se empenha em trazer de volta a extravag\u00e2ncia para um pa\u00eds em que o prazer de viver tinha se tornado tabu, delicadamente mesclando uma amorosa retomada da cultura japonesa tradicional, com seu olhar mais expansivo para a sexualidade e o g\u00eanero, e um apre\u00e7o pela cultura estrangeira, opondo-se \u00e0 postura nacionalista que imperou durante a guerra. Ao resgatar este apre\u00e7o pela cultura estrangeira nos moldes japoneses, Akihiro ajudou a manter vivo um processo de assimila\u00e7\u00e3o do que \u00e9 elemento externo e sua am\u00e1lgama com a cultura j\u00e1 estabelecida, garantindo o dinamismo e a permanente reestrutura\u00e7\u00e3o de sua cultura, sem botar em risco sua ess\u00eancia. A busca de um viver indissoci\u00e1vel do fazer art\u00edstico foi uma das grandes tend\u00eancias de diversas correntes da arte do s\u00e9culo XX, mas dentre aqueles que tentaram essa aproxima\u00e7\u00e3o, foram poucos os que verdadeiramente viveram sua arte e compuseram suas vidas \u00e0 maneira de Akihiro, que deu \u00e0 sua arte a import\u00e2ncia de seu viver, e conferiu ao seu viver a liberdade do seu criar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>NOTAS DE RODAP\u00c9<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><sup>1<\/sup>Palavra usada para descrever homens femininos ou homens gays. Come\u00e7a a ser usada em torno do mesmo momento em que Akihiro ganha notabilidade na m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><sup>2<\/sup>Termo que descreve os atores, normalmente jovens garotos, que fazem pap\u00e9is femininos nas pe\u00e7as de <em>Kabuki<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><sup>3<\/sup>Bodisatva associado \u00e0 compaix\u00e3o, Kannon \u00e9 muitas vezes representado enquanto figura feminina, apesar de \u00e0 rigor transcender os g\u00eaneros assim como afirma Setouchi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><sup>4<\/sup>A palavra <em>Obake<\/em> pode ser traduzida literalmente como fantasma, monstro ou apari\u00e7\u00e3o. Entretanto, mais precisamente indica o ser sobrenatural que toma a forma f\u00edsica de outro, dissimulando sua verdadeira forma. A palavra est\u00e1 relacionada ao verbo <em>Bakeru<\/em> de transformar-se. O mesmo ideograma de <em>Obake<\/em> e <em>Bakeru<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 utilizado na palavra para maquiagem, <em>Kesho\u0304<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><sup>5<\/sup>Vestimentas japonesas com mangas alongadas. Na ilustra\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/bunka.nii.ac.jp\/heritage\/12512\/_149300\/12512_149300150317190708615_900.jpg\" class=\"ek-link\">link<\/a>, vemos alguns homens mais velhos sendo servidos por diversos jovens trajados em<em> furisode<\/em>, na ocasi\u00e3o de um banquete em celebra\u00e7\u00e3o ao outono. A ilustra\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o \u00e9 a d\u00e9cima parte de uma s\u00e9rie de doze ilustra\u00e7\u00f5es de costumes sazonais, em que cada uma representa um dos meses do ano. A s\u00e9rie \u00e9 intitulada <em>Ju\u0304nikagetsufu\u0304zokuz<\/em>u, do artista Mitsuyoshi Tosa e data do per\u00edodo Momoyama (Mori, 2008).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><sup>6<\/sup>Ao referenciar as vestimentas dos garotos jovens da \u00e9poca, conhecidos como <em>wakashu<\/em> ou <em>kosho\u0304<\/em>, Akihiro est\u00e1 associando-se ao tipo de beleza sem g\u00eanero que era vista nesses meninos, que eram os receptores do <em><a href=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5635\" class=\"ek-link\">Nanshoku<\/a><\/em>, amor homosexual entre homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><sup>7<\/sup>Alimento gelatinoso produzido a partir de uma esp\u00e9cie de batata, muito utilizado em ensopados, como o <em>Oden<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><br><sup>8<\/sup>Termo derrogativo utilizado para se referir a homens homossexuais, <em>Drag Queens<\/em> e at\u00e9 mesmo mulheres trans.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><sup>9<\/sup>A alcunha faz refer\u00eancia ao lagarto que a personagem tem tatuado em seu bra\u00e7o esquerdo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Go\u0304, Sato\u0304. \u201c<strong>Miwa Akihiro to \u2018Yoitomake no Uta<\/strong>\u2019\u201d (Akihiro Miwa e a Can\u00e7\u00e3o dos <em>Yoitomake<\/em>). T\u00f3quio: Bungei Shunju\u0304. 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Kamata, To\u0304ji (org.). \u201c<strong>Miwa Akihiro to Iu Ikikata<\/strong>\u201c (O Estilo de Vida Akihiro Miwa). T\u00f3quio: Seikyu\u0304sha. 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mori, Rie. \u201c<strong>Buke no Kimono<\/strong>\u201d (As Vestimentas da Classe Guerreira). <em>Sen\u2019i Gakkaishi<\/em>. Quioto, v. 64, n. 6, p. 190-191, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Setouchi, Jakucho\u0304; Miwa, Akihiro. <strong>Palestra proferida em Agosto de 2015<\/strong>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=USs0OH1VQV4. \u00daltimo acesso em: 07 jun. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Toyoda, Masayoshi. \u201c<strong>O\u0304ra no Sugao: Miwa Akihiro no Ikikata<\/strong>&#8221; (A Verdadeira Face da Aura: O Estilo de Vida de Akihiro Miwa). T\u00f3quio: Ko\u0304dansha. 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GT de G\u00eanero e Sexualidade e GT de Tradu\u00e7\u00e3o | Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o Reda\u00e7\u00e3o: Pedro Malta ChicaroniRevis\u00e3o: Amanda de Morais Silva, Felipe Medeiros e Su\u00e9llen Gentil Em celebra\u00e7\u00e3o ao M\u00eas do Orgulho LGBTQIA+, o GT de G\u00eanero e Sexualidade e o GT de Tradu\u00e7\u00e3o da Curadoria do Jap\u00e3o da CE\u00c1SIA prepararam a publica\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5786,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":10,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[111,16],"tags":[40,54],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5771"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5771"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5771\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5794,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5771\/revisions\/5794"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5786"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}