{"id":5455,"date":"2022-03-09T19:19:46","date_gmt":"2022-03-09T22:19:46","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5455"},"modified":"2022-03-18T17:36:04","modified_gmt":"2022-03-18T20:36:04","slug":"entrevistas-conversa-com-a-tradutora-karen-kazue-kawana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5455","title":{"rendered":"ENTREVISTAS | Conversa com a tradutora Karen Kazue Kawana"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:13px\">Entrevista e texto: Pedro Malta Chicaroni<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:13px\">Revis\u00e3o e texto: Felipe Medeiros<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O Grupo de Trabalho de Tradu\u00e7\u00e3o da Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o da CE\u00c1SIA inicia o ano de 2022 trazendo para o p\u00fablico uma entrevista. Prezou-se por manter a coloquialidade da conversa e por apresentar ao p\u00fablico uma faceta mais humanizada da pessoa e da pr\u00e1tica tradut\u00f3ria, repleta de d\u00favidas e tentativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Karen Kazue Kawana \u00e9 tradutora liter\u00e1ria de Japon\u00eas-Portugu\u00eas, doutora em Filosofia e doutoranda em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Traduziu textos de autores como Ango Sakaguchi, Akiko Yosano (2020) e Riichi Yokomitsu (2017). Convidamos a tradutora a conversar conosco sobre suas experi\u00eancias com tradu\u00e7\u00e3o de literatura japonesa, dando enfoque \u00e0 colet\u00e2nea de contos de Motojir\u00f4 Kajii, <em>O Lim\u00e3o<\/em>, traduzida por ela e publicada pela editora Besti\u00e1rio em 2021.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-2-zatsuneta.com_-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5456\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-2-zatsuneta.com_-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-2-zatsuneta.com_-225x300.jpg 225w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-2-zatsuneta.com_-816x1088.jpg 816w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-2-zatsuneta.com_.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>\u201cPor alguma raz\u00e3o, objetos de beleza decadente exerciam grande atra\u00e7\u00e3o sobre mim nessa \u00e9poca. Por exemplo, apreciava as ruas de quarteir\u00f5es dilapidados, n\u00e3o as ruas principais que me recebiam com frieza, mas a vielas que revelavam sua intimidade: as roupas sujas penduradas nos varais e o lixo espalhado pelo ch\u00e3o, os interiores dos c\u00f4modos imundos que entrevia quando passava diante das casas.\u201d (\u201cO lim\u00e3o\u201d, p. 9)<br>Motojir\u014d Kajii. Fonte: zatsuneta.com<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Grupo de Trabalho: Em primeiro lugar, gostar\u00edamos de pedir para que se apresentasse, Karen, contando-nos sobre sua trajet\u00f3ria com a l\u00edngua japonesa e a tradu\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br>Karen Kawana: Sendo descendente de japoneses, meu contato com a cultura japonesa come\u00e7ou em casa. Meu pai \u00e9 japon\u00eas e veio ao Brasil com 22 anos, em um desses \u00faltimos navios que trouxeram imigrantes para trabalharem como colonos. Apesar disso, n\u00e3o iniciei meus estudos da l\u00edngua at\u00e9 mais tarde. Nunca fiz <em>Nihon Gakk\u00f4 <sup>1<\/sup>,<\/em> nem conversava em japon\u00eas em casa. Meu pai, \u00e0s vezes, usava palavras em japon\u00eas, mas o que eu aprendi foi por acaso, pescando o significado de algumas coisas que eram faladas ao meu redor. Eu s\u00f3 comecei a estudar japon\u00eas quando entrei na faculdade. Fiz gradua\u00e7\u00e3o em filosofia, pois n\u00e3o sabia muito <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">bem o que fazer da vida, ent\u00e3o escolhi um curso que me permitisse ler, algo de que sempre gostei. Quando entrei na faculdade, podia praticamente cumprir metade dos meus cr\u00e9ditos em disciplinas de outras \u00e1reas. Acabei usando esses cr\u00e9ditos em disciplinas de l\u00edngua japonesa e assim fiz o curso de japon\u00eas b\u00e1sico no Centro de Ensino de L\u00ednguas da Unicamp. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m fiz monitoria durante um ano l\u00e1, mas, praticamente, parei de estudar a l\u00edngua depois que terminei minha gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quando fui fazer o mestrado em filosofia e, em seguida, tamb\u00e9m o doutorado na mesma \u00e1rea, passei a estudar franc\u00eas, l\u00edngua do autor que eu estudava, Rousseau. Minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi praticamente concentrada nos pensadores franceses, como Rousseau, Diderot e Voltaire. Foi apenas depois de um tempo, quando n\u00e3o tinha mais tantas atividades acad\u00eamicas, que eu voltei a estudar japon\u00eas, fazendo cursos particulares ou estudando por conta pr\u00f3pria. Levei muito tempo para ter um n\u00edvel de leitura satisfat\u00f3rio, que me permitisse de fato ler um texto. Quando isso aconteceu, eu resolvi fazer o mestrado em japon\u00eas na USP. Minha disserta\u00e7\u00e3o foi sobre Osamu Dazai, com a professora Neide Hissae Nagae como orientadora. Acho que foi a partir da\u00ed que eu comecei a traduzir mesmo: traduzindo os contos de Dazai que tinham narradoras protagonistas, que era o tema da minha pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Depois disso, eu n\u00e3o parei mais. Eu vi que traduzir era tamb\u00e9m um jeito de estudar, de adquirir vocabul\u00e1rio, e esse processo de tradu\u00e7\u00e3o e aprendizado da l\u00edngua continua at\u00e9 hoje. (Esses contos do Dazai que eu traduzi tiveram seus direitos autorais adquiridos por uma editora, que, infelizmente, n\u00e3o os publicou at\u00e9 hoje.) Depois de um tempo, eu passei a traduzir os contos do Motojir\u00f4 Kajii, ainda com essa inten\u00e7\u00e3o de aprimorar meu japon\u00eas, porque a l\u00edngua japonesa \u00e9 dif\u00edcil e acho importante estabelecer uma intimidade com a l\u00edngua que se estuda por meio da leitura ou da conversa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um processo ativo, n\u00e3o acontece sozinho. No momento, estou fazendo um doutorado sobre autores japoneses e tamb\u00e9m tenho seguido o mesmo padr\u00e3o, tentando sempre me valer do texto em sua l\u00edngua original, como tenho feito desde o mestrado e o doutorado em filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GT: Voc\u00ea diria que a tradu\u00e7\u00e3o faz parte do seu processo de pesquisa? Que ela est\u00e1 ligada ao seu processo de estudar um autor?<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Para mim, a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 parte importante do meu processo de pesquisa. Acho que, fazendo a tradu\u00e7\u00e3o, eu consigo ver coisas no texto que n\u00e3o enxergaria se n\u00e3o a fizesse. Muitas pessoas falam que voc\u00ea tem que come\u00e7ar a traduzir um autor depois que voc\u00ea j\u00e1 leu tudo dele, depois que voc\u00ea j\u00e1 conhece intimamente o autor por t\u00ea-lo estudado. Mas eu gosto de fazer essas duas coisas em conjunto: estudar e traduzir ao mesmo tempo. Acho que s\u00e3o coisas complementares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GT: Em fevereiro de 2021, voc\u00ea lan\u00e7ou uma tradu\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea de contos <em>O Lim\u00e3o<\/em> de Motojir\u014d Kajii (1901-1932) pela editora Besti\u00e1rio. Kajii \u00e9 reconhecido como um dos maiores contistas da tradi\u00e7\u00e3o moderna japonesa, mas creio que o autor ainda seja, em grande medida, desconhecido do p\u00fablico brasileiro. Sendo assim, gostaria de pedir que, brevemente, nos contasse um pouco sobre a obra de Kajii, da maneira como voc\u00ea a enxerga. Como voc\u00ea descreveria a literatura deste autor? Quais pontos chamam a sua aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Acho que, assim como todo mundo que descobre o Kajii, o primeiro texto do autor que eu li foi o conto \u201cO Lim\u00e3o\u201d. Devo ter lido alguma tradu\u00e7\u00e3o, tenho o costume de ler muita literatura japonesa traduzida para conhecer novos autores. Sou uma leitora um pouco lenta em japon\u00eas, costumo procurar o significado de todas as palavras desconhecidas de um texto no dicion\u00e1rio e isso toma muito tempo; ent\u00e3o, \u00e0s vezes, prefiro ler tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas ou para o franc\u00eas. Quando li \u201cO Lim\u00e3o\u201d pela primeira vez, achei o autor interessante e resolvi fazer a tradu\u00e7\u00e3o desse texto, a partir do original. Depois disso, como vi que o autor n\u00e3o tinha uma obra extensa, majoritariamente contos esparsos, comecei a traduzir um ou outro, at\u00e9 que, ao final, eu havia traduzido quase tudo que ele havia publicado em vida, ou seus principais textos. J\u00e1 que ele teve uma carreira liter\u00e1ria muito curta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Sobre o fato de ele ser pouco conhecido aqui no Brasil, eu acredito que isso tamb\u00e9m seja verdade no Jap\u00e3o. Os japoneses com os quais conversei tamb\u00e9m conheciam poucos textos do autor, praticamente s\u00f3 \u201cO Lim\u00e3o\u201d, que estudam nas escolas mesmo. O Kajii \u00e9 um autor do qual gosto muito, porque gosto de textos descritivos e ele \u00e9 um escritor muito visual. Seus textos trazem descri\u00e7\u00f5es e imagens muito inusitadas e t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o forte com a pintura tamb\u00e9m. Ele costuma citar pintores ocidentais, relacionando um quadro com uma paisagem, por exemplo; e como eu tamb\u00e9m sou muito visual, quando leio, gosto de visualizar aquelas paisagens em minha mente. Acho que ele casou bem com as minhas prefer\u00eancias liter\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GT: Voc\u00ea diria que o que te levou a se interessar por Motojir\u014d Kajii foi essa quest\u00e3o descritiva e imag\u00e9tica da obra dele? O que te motivou a traduzir a obra dele especificamente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Acho que foi isso mesmo. Uma quest\u00e3o de afinidade, voc\u00ea acaba traduzindo aquilo de que gosta, e pelo menos eu tenho essa liberdade de escolher o que traduzir. Gosto da melancolia e do estilo do Kajii, e da sua hist\u00f3ria de vida tamb\u00e9m. Ele ficou doente muito jovem, passou metade da vida com tuberculose e eu acho que isso tem muita influ\u00eancia na forma como ele enxerga as coisas, isso tinge muito os seus textos. Principalmente em sua rela\u00e7\u00e3o com a morte, que se reflete em um jogo de claro e escuro em seus textos. Ele usa muito esse recurso, contrap\u00f5e o sol e a alegria \u00e0 escurid\u00e3o, descreve muito a noite ou os momentos em que v\u00ea o sol se p\u00f4r, o que, ao meu ver, ele associa com seu pr\u00f3prio caso: com a certeza de que vai morrer um dia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"673\" height=\"974\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-1-ameblo.jp_.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5459\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-1-ameblo.jp_.jpg 673w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Kajii-1-ameblo.jp_-207x300.jpg 207w\" sizes=\"(max-width: 673px) 100vw, 673px\" \/><figcaption>\u201cFui atingido por uma sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o infinita. O concerto \u2013 a grande cidade na qual ele ocorria \u2013 o mundo. A curta pe\u00e7a musical chegou ao fim. Um som parecido com um vento frio e seco se prolongou por algum tempo. Depois disso, a m\u00fasica voltou a ressoar em meio ao sil\u00eancio. Nada mais fazia sentido. Como explicar aqueles per\u00edodos de ruidosa como\u00e7\u00e3o e total sil\u00eancio sen\u00e3o dizer que eram um sonho?\u201d (\u201cDel\u00edrios instrumentais\u201d, p. 137)&nbsp;<br>Motojir\u014d Kajii. Fonte: ameblo.jp<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GT: Ouvindo voc\u00ea falar sobre os pontos que te atraem na obra do Kajii, acabei lembrando, em espec\u00edfico, de um dos contos da colet\u00e2nea, \u201cO Pergaminho Ilustrado da Obscuridade\u201d. Poderia nos falar um pouco sobre o que pensa dele?<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Esse \u00e9 um dos contos de que gosto bastante. Nele, Kajii descreve o percurso que fazia quando voltava de uma pousada onde ele se encontrava com Kawabata. Ele vai, basicamente, descrevendo as transi\u00e7\u00f5es entre escurid\u00e3o e claridade que percebia enquanto caminhava e como isso o afetava: o al\u00edvio que sentia quando via uma luz l\u00e1 na frente, a sensa\u00e7\u00e3o de temor e melancolia que experimentava quando passava por trechos mais escuros e via uma pessoa \u00e0 sua frente desaparecendo na escurid\u00e3o (como ele dizia que tamb\u00e9m desapareceria um dia). Acho esse um conto bem elaborado, muito bonito.<\/p>\n\n\n\n<p>GT: Agora, falando especificamente da tradu\u00e7\u00e3o, quais foram os desafios de trazer Kajii para o p\u00fablico brasileiro? Como voc\u00ea lidou com as caracter\u00edsticas espec\u00edficas da l\u00edngua japonesa, por exemplo, a diferen\u00e7a na ordena\u00e7\u00e3o das frases, ao realizar a tradu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Acho que os desafios para traduzir os contos de Kajii foram os mesmos que encontraria traduzindo outros autores japoneses. N\u00e3o me lembro de nenhum desafio em particular. Dentre minhas (poucas) experi\u00eancias com tradu\u00e7\u00e3o, o Kajii n\u00e3o foi um autor que tenha achado mais dif\u00edcil de traduzir do que os demais. Se eu tivesse que mencionar algo, diria que a grande quantidade de nomes de plantas que tive de pesquisar talvez tenha sido a maior dificuldade. Sobre as particularidades da l\u00edngua japonesa, pessoalmente, tento favorecer a domestica\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da estrangeiriza\u00e7\u00e3o quando traduzo. Gosto que o texto fique um pouco mais natural, que ele n\u00e3o soe t\u00e3o estranho para o leitor. Mas n\u00e3o sei se sou bem sucedida nisso, porque isso tamb\u00e9m depende de muitas quest\u00f5es idiossincr\u00e1ticas do tradutor e do leitor. O que pode soar \u201cnatural\u201d para mim pode ser estranho para quem l\u00ea. Al\u00e9m disso, \u00e9 f\u00e1cil deixar certas coisas passarem despercebidas enquanto traduzimos. A ordem das frases, por exemplo. \u00c0s vezes, \u00e9 s\u00f3 quando releio minha tradu\u00e7\u00e3o que consigo ver que seria melhor escrever o texto de uma forma diferente, mudando a ordem dos elementos. Quando poss\u00edvel, tento n\u00e3o deixar muitas palavras estrangeiras no texto, at\u00e9 para n\u00e3o ter de abrir tantas notas. Por outro lado, sei que dou muitas explica\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar um equil\u00edbrio. Enfim, gosto da ideia de ler um texto traduzido como se ele tivesse sido escrito na l\u00edngua alvo, mas \u00e9 um ideal, n\u00e3o sei se consigo obter isso na pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">GT: Apesar do Kajii ser um autor famoso pelo seu estilo marcante, parece-me que seus contos tamb\u00e9m s\u00e3o muito variados entre si. Como voc\u00ea sente essa multiplicidade da obra do autor enquanto leitora e tradutora?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Eu fa\u00e7o uma divis\u00e3o da obra do autor entre os textos de que gosto mais e aqueles de que gosto menos. \u201cO Lim\u00e3o\u201d \u00e9 um dos de que gosto muito. \u00c9 um dos textos que trazem uma carga imag\u00e9tica e sensorial muito grande. Al\u00e9m dele, tamb\u00e9m gosto de alguns dos seus textos que s\u00e3o quase como poemas em prosa, como \u201cSob as cerejeiras\u201d. Acho o Kajii mais interessante quando ele est\u00e1 falando mais de si mesmo, quando se confunde com o protagonista de seus contos. Seus textos se tornam menos interessantes para mim quando s\u00e3o escritos em terceira pessoa, como em \u201cDepois da Nevasca\u201d, ou em \u201cO Paciente Despreocupado\u201d, que acho que \u00e9 um dos contos que mais destoa do estilo do resto da colet\u00e2nea, pois, nele, Kajii come\u00e7a a associar a sua condi\u00e7\u00e3o pessoal de enfermo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre que sofre de tuberculose, revelando uma inclina\u00e7\u00e3o para a literatura prolet\u00e1ria. \u00c9 um bom conto, claro, mas n\u00e3o um dos meus preferidos.<br>GT: Por fim, queria te agradecer, Karen, por ter aceitado participar desta conversa e gostaria que voc\u00ea nos contasse um pouco sobre seus pr\u00f3ximos projetos de tradu\u00e7\u00e3o e pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">K: Ano passado, organizei e traduzi, junto com outros tradutores do n\u00facleo de tradu\u00e7\u00e3o do Grupo de Pesquisa \u201cPensamento Japon\u00eas: Princ\u00edpios e Desdobramentos\u201d uma colet\u00e2nea de textos da escritora Yuriko Miyamoto e espero que ela seja publicada futuramente. Ela \u00e9 uma autora desconhecida por aqui e acho que enriqueceria nosso repert\u00f3rio de literatura japonesa de autoria feminina em tradu\u00e7\u00e3o. Este ano, fa\u00e7o parte de outro n\u00facleo de tradu\u00e7\u00e3o que vai come\u00e7ar a traduzir uma autora chamada Toshiko Tamura. Em quest\u00e3o de estilo e tem\u00e1tica, ela \u00e9 bem diferente das escritoras que j\u00e1 li e espero que possamos public\u00e1-la tamb\u00e9m. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m pretendo traduzir um conto do Katai Tayama e outro do Riichi Yokomitsu que li no passado e de que gostei bastante. Enfim, h\u00e1 muita coisa que gostaria de traduzir, mas n\u00e3o sei se terei tempo este ano, geralmente envio minhas tradu\u00e7\u00f5es para a Revista Nota do Tradutor<sup>2<\/sup>, editada por Gleiton Lentz. Ent\u00e3o, se traduzir algo, talvez apare\u00e7a por l\u00e1. O acesso \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es \u00e9 gratuito e qualquer pessoa pode fazer o download das edi\u00e7\u00f5es anteriores. Sobre meu doutorado, a ideia \u00e9 desenvolver uma pesquisa sobre a figura feminina na literatura japonesa moderna. Para isso, penso em casar a Miyamoto, a Tamura e mais algum autor, ou autores, do sexo masculino, ainda preciso definir quais estes ser\u00e3o. Por fim, tamb\u00e9m quero agradecer a oportunidade de falar um pouco sobre tradu\u00e7\u00e3o e sobre Motojir\u00f4 Kajii.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/limao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5457\" width=\"570\" height=\"856\" srcset=\"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/limao.jpg 413w, https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/limao-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption>japonesa moderna. Para isso, penso em casar a Miyamoto, a Tamura e mais algum autor, ou autores, do sexo masculino, ainda preciso definir quais estes ser\u00e3o. Por fim, tamb\u00e9m quero agradecer a oportunidade de falar um pouco sobre tradu\u00e7\u00e3o e sobre Motojir\u00f4 Kajii.<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"font-size:13px\"><sup>1<\/sup>&nbsp;Ensino b\u00e1sico em l\u00edngua japonesa ou bil\u00edngue japon\u00eas-portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:13px\"><sup>2<\/sup> Link para a Revista Nota de Tradutor: http:\/\/notadotradutor.com\/edicoes.html<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esperamos que voc\u00eas tenham gostado da entrevista. Se houver d\u00favidas e impress\u00f5es, n\u00e3o deixe de comentar abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Caso queira ler o conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro traduzido por Karen Kawana, ela publicou, em 2020, a tradu\u00e7\u00e3o na Revista de Estudos Japoneses: <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/ej\/article\/view\/185945\/171720\">https:\/\/www.revistas.usp.br\/ej\/article\/view\/185945\/171720<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se quiser adquirir o livro completo, \u00e9 poss\u00edvel compr\u00e1-lo pelo site da Editora Besti\u00e1rio: <a href=\"https:\/\/www.bestiario.com.br\/livros\/limao.html\">https:\/\/www.bestiario.com.br\/livros\/limao.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista e texto: Pedro Malta Chicaroni Revis\u00e3o e texto: Felipe Medeiros O Grupo de Trabalho de Tradu\u00e7\u00e3o da Curadoria de Assuntos do Jap\u00e3o da CE\u00c1SIA inicia o ano de 2022 trazendo para o p\u00fablico uma entrevista. 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