{"id":5001,"date":"2022-01-07T08:00:00","date_gmt":"2022-01-07T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5001"},"modified":"2022-01-07T17:30:07","modified_gmt":"2022-01-07T20:30:07","slug":"sextou-na-asia-mulheres-mangakas-superando-as-representacoes-de-genero-em-mangas-shonen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=5001","title":{"rendered":"#SEXTOU NA \u00c1SIA| Mulheres mangak\u00e1s: superando as representa\u00e7\u00f5es de g\u00eanero em mang\u00e1s sh\u014dnen"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><strong>Por Emily Rafany (Graduada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela UFGD)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">emily.rafany14@gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os mang\u00e1s e seus criadores, os mangak\u00e1s, formam uma importante parte da cultura japonesa. Essas obras s\u00e3o um dos principais itens de exporta\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds, bem como s\u00e3o respons\u00e1veis por alimentar a bilion\u00e1ria ind\u00fastria de entretenimento no Jap\u00e3o, servindo de inspira\u00e7\u00e3o para anima\u00e7\u00f5es, filmes, jogos e at\u00e9 mesmo caf\u00e9s tem\u00e1ticos. Contudo, apesar da popularidade e do grande n\u00famero de leitores, os mang\u00e1s come\u00e7aram sendo, e ainda s\u00e3o, um campo dominado por homens. As mulheres, na sociedade japonesa, enfrentam grandes desafios no mercado de trabalho, e nessa ind\u00fastria n\u00e3o \u00e9 diferente. Contudo, muitas mangak\u00e1s foram capazes de atingir sucesso, principalmente na subcategoria de mang\u00e1s sh\u014dnen, que tem como p\u00fablico alvo meninos adolescentes. Portanto, torna-se essencial observar a contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a trajet\u00f3ria de mulheres na ind\u00fastria de mang\u00e1s e o efeito que essas mangak\u00e1s tiveram na categoria dos mang\u00e1s para garotos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esses \u201cquadrinhos japoneses\u201d se distanciam substancialmente de sua contraparte ocidental. Entre as diferen\u00e7as est\u00e1 a linguagem visual: lidos da direita para a esquerda, com p\u00e1ginas em preto e banco e personagens com olhos grandes e expressivos. Contudo, a principal singularidade dessa ind\u00fastria no Jap\u00e3o \u00e9 a segmenta\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o em grupos demogr\u00e1ficos, isto \u00e9, divis\u00f5es voltadas a um p\u00fablico alvo baseado tanto em idade como g\u00eanero sexual. A datar dos primeiros passos da ind\u00fastria, essa divis\u00e3o influencia tudo, desde a publicidade at\u00e9 o <em>layout<\/em> das livrarias e a pol\u00edtica editorial, sem mencionar o padr\u00e3o narrativo e o desenvolvimento dos personagens. Assim, os mang\u00e1s iniciam sua publica\u00e7\u00e3o em revistas divididas em pelo menos quatro grandes categorias: sh\u014dnen (\u5c11\u5e74 &#8211; voltado para meninos adolescentes), seinen (\u6210\u5e74 &#8211; voltado para homens adultos), sh\u014djo (\u5c11\u5973 &#8211; voltado para meninas) e josei (\u5973\u6027 &#8211; voltado para mulheres adultas).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No que diz respeito ao p\u00fablico leitor, n\u00e3o podemos presumir que as revistas divididas em g\u00eanero sejam lidas exclusivamente por aqueles a quem t\u00eam como alvo principal. Nesse sentido, atualmente, <a href=\"https:\/\/www.otaquest.com\/line-research-shift-weekly-shonen-jump-readership\/\">pelo menos um ter\u00e7o dos leitores da revista Weekly Sh\u014dnen Jump, respons\u00e1vel por t\u00edtulos como My Hero Academia e Haikyuu, s\u00e3o garotas<\/a>, sendo mais do que qualquer outra revista da categoria. Tanto que, atualmente, essa divis\u00e3o est\u00e1 gradualmente se extinguindo, tornando-se mais uma separa\u00e7\u00e3o de enredo e tem\u00e1tica das hist\u00f3rias. Se por um lado a atribui\u00e7\u00e3o de todo um mercado de quadrinhos destinado ao p\u00fablico feminino seja um avan\u00e7o se comparado com o ocidente, por muitos anos, essa divis\u00e3o foi respons\u00e1vel por refor\u00e7ar estere\u00f3tipos sexistas, principalmente naqueles que tem garotos como p\u00fablico alvo: os sh\u014dnen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Os mang\u00e1s sh\u014dnen s\u00e3o a categoria que atrai mais leitores, seja dentro ou fora do Jap\u00e3o. Mesmo quem nunca leu um mang\u00e1 do tipo ou tenha assistido sua adapta\u00e7\u00e3o em anime, pode reconhecer personagens dos hits mundiais Naruto, One Piece ou Dragon Ball. Essas hist\u00f3rias s\u00e3o, geralmente, centradas em um protagonista masculino em busca de seu objetivo, abordando temas como treinamento, amizade e vit\u00f3ria. S\u00e3o repletos de a\u00e7\u00e3o, apresentando lutas f\u00edsicas de algum tipo ou eventos esportivos. Quanto \u00e0 autoria desses mang\u00e1s, ou ela n\u00e3o \u00e9 pensada ou \u00e9 tida naturalmente como masculina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Embora, felizmente, tenha come\u00e7ado a mudar nos \u00faltimos anos, algo crucial est\u00e1 faltando nesses mang\u00e1s sh\u014dnen: personagens femininas bem escritas. A maioria dessas hist\u00f3rias s\u00e3o vistas pelo que podemos chamar de \u201cmale gaze\u201d ou olhar masculino. O conceito, examinado por Laura Mulvey em <em>Visual Pleasure and Narrative Cinema<\/em>, explica como as obras de arte e, especialmente o cinema hollywoodiano, exigem que todos os espectadores, independentemente de seu sexo, se identifiquem com o protagonista masculino e adotem o \u201colhar masculino\u201d dominante que, consequentemente, faz com que a <a href=\"https:\/\/www.stirworld.com\/think-opinions-the-art-of-the-female-gaze-what-is-it\">representa\u00e7\u00e3o de mulheres na arte seja a personifica\u00e7\u00e3o de um papel passivo e um tanto enfraquecido<\/a>. Embora o conceito venha do cinema, ele pode ser visto em demasia nos mang\u00e1s destinados ao p\u00fablico masculino. Eles costumam ter menos personagens femininas bem desenvolvidas e acabam ancorados em arqu\u00e9tipos da representa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como a donzela em perigo e o interesse amoroso. Ao mesmo tempo, essas personagens s\u00e3o hipersexualizadas, hiperfeminizadas e usadas como alvo de piadas inadequadas que, por vezes, envolvem abuso sexual, algo que ficou conhecido no mundo dos animes e mang\u00e1s como \u201cfan service\u201d. Nesse sentido, podemos afirmar que&nbsp; as mulheres em mang\u00e1s sh\u014dnen foram tradicionalmente postas de lado e o mundo do mang\u00e1 ainda n\u00e3o acompanhou os tempos criando personagens femininas que s\u00e3o realistas e simp\u00e1ticas \u00e0s suas contrapartes do mundo real, e t\u00e3o proeminentes e importantes quanto seus co-protagonistas masculinos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Esse tipo de representa\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo \u00e9 alvo de cr\u00edticas, principalmente pelo crescente n\u00famero de leitoras de mang\u00e1s sh\u014dnen. Com uma parcela cada vez maior de leitoras, existe uma expectativa de melhor representatividade sem romper completamente com as estruturas do sh\u014dnen. Coincidentemente, mang\u00e1s dessa categoria que foram capazes de retratar representa\u00e7\u00f5es de g\u00eanero n\u00e3o convencionais e personagens femininas bem desenvolvidas foram criados por mulheres. Inclusive, muitos atingiram grande sucesso comercial e foram amplamente aclamados pelo p\u00fablico em geral como InuYasha e Fullmetal Alchemist, que ser\u00e3o abordados adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em contraposi\u00e7\u00e3o ao male-gaze dominante, podemos afirmar que muitas dessas autoras aplicam o \u201cfemale-gaze\u201d ou olhar feminino.&nbsp; Kathryn Hemmann, em <em>Manga Cultures and The Female Gaze,<\/em> argumenta que esse conceito, em contraposi\u00e7\u00e3o ao male-gaze, pode ser usado por escritores e leitores para olhar as narrativas de uma perspectiva que v\u00ea as mulheres como sujeitos em vez de objetos ou v\u00edtimas passivas. Desse modo, ao aplicar um olhar feminino a discursos que tradicionalmente s\u00e3o dominados por homens, ser\u00edamos capazes de abrir novos caminhos de interpreta\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, quando essas mangak\u00e1s concedem privil\u00e9gios narrativos \u00e0s personagens femininas, permitem que se tornem hero\u00ednas de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O coletivo de quatro mulheres mangak\u00e1s, CLAMP, \u00e9 um grande exemplo da aplica\u00e7\u00e3o do conceito. Elas j\u00e1 publicaram nas quatro maiores demografias e, independentemente do g\u00eanero, seu trabalho \u00e9 caracterizado por suas proeminentes personagens femininas (HEMMANN, 2020). O grupo deturpa a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero demogr\u00e1fico ao escolher como representantes personagens femininas em seus mang\u00e1s sh\u014dnen e seinen. Hemmann, explica como subvertem os tropos sexistas da jovem garota (a virgem objetificada e inocente), bem como a mulher mais velha (a figura da \u201cm\u00e3e\u201d vil e sexualmente desperta), respectivamente nas obras Tsubasa: Reservoir Chronicle (2003-2009) e xxxHolic (2003-2011). Al\u00e9m disso, o sucesso do grupo lan\u00e7ou as bases para que mais criadoras empregassem o olhar feminino na ind\u00fastria de mang\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">&nbsp;Contudo, antes do grupo ser formado e inspirar demais criadoras a partir da d\u00e9cada de 1980, duas d\u00e9cadas antes outras artistas deram os primeiros passos na ind\u00fastria para que isso fosse poss\u00edvel. O final dos anos 1960 viu o primeiro grande grupo de mulheres mangak\u00e1s entrar na ind\u00fastria, ficando conhecidas como o Grupo do Ano 24 (em refer\u00eancia ao ano de nascimento mais comum do grupo). Entre elas est\u00e3o Yamagishi Ryoko (Arabesque), Ikeda Riyoko (A Rosa de Versalhes), Hagio Moto (A Fam\u00edlia Poe) e Takemiya Keiko (Kaze to Ki no Uta) &#8211; as fundadoras do g\u00eanero \u201cboys love\u201d &#8211; e Oshima Yumiko (The Star of Cottonland). Elas criavam mang\u00e1s sh\u014djo, algo que at\u00e9 ent\u00e3o era predominante criado por homens. Foi a primeira vez que mulheres passaram a escrever sobre suas perspectivas para o p\u00fablico feminino. Assim, de acordo com Daugherty (2020), o sh\u014djo foi respons\u00e1vel por abrir as portas para as mulheres no mundo do mang\u00e1, al\u00e9m de dar um espa\u00e7o para descrever como era ser mulher de tal forma que trouxe aos leitores uma sensa\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o das normas e restri\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">At\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, haviam poucos mang\u00e1s sh\u014dnen escritos por mulheres, em grande medida \u00e0 expectativa de que os mangak\u00e1s escrevessem dentro de sua demografia. Assim, encontramos mais mulheres que escrevem mang\u00e1s em revistas sh\u014djo e josei do que sh\u014dnen e seinen. No entanto, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as autoras de mang\u00e1s sh\u014dnen tornaram-se mais comuns e seus trabalhos frequentemente alcan\u00e7am grande reconhecimento. Como mencionado, n\u00e3o s\u00f3 muitas aplicaram, conscientemente ou n\u00e3o, o female-gaze, como foram capazes de usar suas experi\u00eancias e vozes para criar mang\u00e1s voltados para meninos com melhor representa\u00e7\u00e3o de personagens femininas, do que significa ser um homem e das rela\u00e7\u00f5es entre pessoas de todos os g\u00eaneros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O mang\u00e1 sh\u014dnen de maior sucesso criado por uma mulher foi Fullmetal Alchemist (2001-2010) de Hiromu Arakawa. A s\u00e9rie j\u00e1 vendeu mais de 64 milh\u00f5es de volumes, recebeu duas adapta\u00e7\u00f5es em anime, dois filmes e v\u00e1rios videogames. A hist\u00f3ria segue a jornada do \u201calquimista de metal\u201d Edward Elric e seu irm\u00e3o Alphonse enquanto procuram pela lend\u00e1ria Pedra Filosofal a fim de trazer de volta os membros (e, no caso de Alphonse, o corpo) que perderam na inf\u00e2ncia quando tentaram trazer sua m\u00e3e de volta dos mortos usando alquimia. A autora prezou muito tempo pela anonimidade, utilizando um pseud\u00f4nimo masculino (seu nome verdadeiro \u00e9 Hiromi) e utilizando como autorretrato na comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico uma vaca de \u00f3culos. Se ela escondeu sua identidade por medo de n\u00e3o ser levada a s\u00e9rio como uma autora sh\u014dnen, n\u00e3o est\u00e1 claro, mas <a href=\"https:\/\/randomarakawa.wordpress.com\/2013\/03\/14\/entrevistadeanimeland\/\">em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 revista francesa Animeland em 2013<\/a>, Arakawa diz: \u201cAlguns homens s\u00e3o realmente capazes de imaginar personagens sens\u00edveis e complexos, enquanto algumas mulheres s\u00e3o capazes de criar cenas de a\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes violentas. Hoje em dia, cada escritor tem a sua especialidade. N\u00e3o importa se \u00e9 homem ou mulher.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Al\u00e9m da narrativa e das incr\u00edveis cenas de a\u00e7\u00e3o, um dos pontos positivos do mang\u00e1 est\u00e1 nas personagens femininas. Elas costumam ser bem equilibradas e din\u00e2micas, com seus pr\u00f3prios arcos de personagem e objetivos pessoais. Enquanto suas hist\u00f3rias empregam alguns \u201ctropos\u201d de g\u00eanero que est\u00e3o comumente presentes em mang\u00e1s sh\u014dnen, ela tamb\u00e9m (conscientemente ou n\u00e3o) confronta alguns clich\u00eas e os destr\u00f3i com sua narrativa. Ao fazer isso, ela sutilmente incentiva seus leitores a desafiar os estere\u00f3tipos sobre as mulheres que eles v\u00eaem em outras fic\u00e7\u00f5es ou mesmo na vida real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ter personagens femininas bem escritas e realistas em um sh\u014dnen n\u00e3o \u00e9 um sinal de que as autoras que criaram esses personagens tiveram influ\u00eancia no g\u00eanero como um todo, mas sua popularidade significa que seus leitores &#8211; principalmente jovens garotos &#8211; s\u00e3o receptivos a esses personagens que rompem com a representa\u00e7\u00e3o tradicional dos pap\u00e9is de g\u00eanero com personagens femininas bem desenvolvidas que fogem dos estere\u00f3tipos tradicionais do mang\u00e1 sh\u014dnen das personagens hipersexualizadas e sem ag\u00eancia. Desse modo, abriram caminho para o melhor tratamento de personagens femininos e exame mais aprofundado dos pap\u00e9is de g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 evidente que simplesmente ter mulheres fazendo mang\u00e1s n\u00e3o \u00e9 suficiente para resolver o sexismo que permeia os mang\u00e1s e a sua produ\u00e7\u00e3o. S\u00f3 porque esses t\u00edtulos s\u00e3o criados por mulheres n\u00e3o significa, necessariamente, que eles sejam livres das personagens femininas excessivamente sexualizadas, donzelas em perigo e assim por diante. A t\u00edtulo de exemplo, em Magi: The Labyrinth of Magic (2009-2017), criado por Shinobu Ohtaka, existem personagens femininas t\u00e3o ou mais fortes que os masculinos, mas que s\u00e3o alvos constantes de piadas sexuais e gordof\u00f3bicas. Embora nem todos os mang\u00e1s escritos por mulheres escapem dos estere\u00f3tipos de g\u00eanero, n\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 uma chance maior de ver uma representa\u00e7\u00e3o positiva das mulheres em mang\u00e1s voltados ao p\u00fablico masculino se for criado por uma mulher, como essas autoras s\u00e3o mais propensas a criticar ou subverter a estrutura dominante de g\u00eanero do que os autores do sexo masculino, como evidenciado acima com o grupo CLAMP e Hiromu Arakawa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Personagens femininas bem escritas n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico aspecto que essas mangak\u00e1s trouxeram, muitas delas incorporam em seus mang\u00e1s sh\u014dnen elementos tradicionais do sh\u014djo. Esses mang\u00e1s geralmente s\u00e3o sobre desenvolvimento interior da protagonista e suas intera\u00e7\u00f5es com o meio ao seu redor, desse modo, alguns dos principais elementos s\u00e3o personagens femininas como protagonistas ou co-protagonistas e, por consequ\u00eancia, com ag\u00eancia geralmente associada aos her\u00f3is dos sh\u014dnen; foco no desenvolvimento pessoal da jovem protagonista, subvertendo no\u00e7\u00f5es sexistas de tropos encontrados tipicamente em sh\u014dnen; presen\u00e7a feminina e masculina mais balanceada e \u00eanfase nos relacionamentos, sejam rom\u00e2nticos ou n\u00e3o. Essas caracter\u00edsticas n\u00e3o s\u00f3 diferenciam seus trabalhos dos sh\u014dnen convencionais, como s\u00e3o capazes de deixar a demografia mais complexa e mais atraente para um p\u00fablico que est\u00e1 cada vez mais diverso. Nesse sentido, podemos destacar Kore Yamazaki em The Ancient Magus Bride (2013-2022~), Adachitoka em Noragami (2011-2022~) e, claro, Rumiko Takahashi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Entre as mangak\u00e1s que tiveram proemin\u00eancia nesse quesito est\u00e3o Rumiko Takahashi, que incorporou esses elementos em v\u00e1rias de suas obras, mas que se destacam principalmente em InuYasha (1996-2008). Apesar do t\u00edtulo do mang\u00e1 se referir ao meio-youkai InuYasha, acompanhamos a jornada de Kagome, uma garota colegial que descobre ser capaz de viajar entre o Jap\u00e3o moderno e o Jap\u00e3o do per\u00edodo Sengoku (1467-1615). Os dois embarcam em uma aventura para reunir os fragmentos da J\u00f3ia de Quatro Almas, um poderoso artefato capaz de fortalecer youkais, ao mesmo tempo que devem lidar com suas diferen\u00e7as. Na s\u00e9rie n\u00e3o s\u00f3 acompanhamos o desenvolvimento da Kagome, como nos \u00e9 apresentado uma mir\u00edade de mulheres complexas e multidimensionais, al\u00e9m de ser um bom exemplo de equil\u00edbrio entre a\u00e7\u00e3o e romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Apesar dos exemplos acima, de crescimento nesse ambiente tradicionalmente masculino, essas mangak\u00e1s ainda s\u00e3o poucas e enfrentam barreiras \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o. Os mangak\u00e1s, em geral, prezam por sua privacidade, mas as criadoras de mang\u00e1s para meninos tem um motivo a mais para isso: a estigmatiza\u00e7\u00e3o. Apesar de v\u00e1rios exemplos de sucesso, ainda h\u00e1 pessoas que acreditam que mulheres n\u00e3o conseguem escrever boas hist\u00f3rias destinadas ao p\u00fablico masculino ou boas hist\u00f3rias de a\u00e7\u00e3o, o que acaba por gerar uma resist\u00eancia por parte de leitores e editores. Como consequ\u00eancia, muitas mangak\u00e1s utilizam pseud\u00f4nimos e escondem sua identidade. Nesse sentido, j\u00e1 especularam se a pessoa que criou o sucesso mundial Kimetsu no Yaiba (Demon Slayer) \u00e9 n\u00e3o-bin\u00e1ria ou do sexo feminino por n\u00e3o ter revelado seu g\u00eanero e utilizar pronomes neutros. S\u00f3 a possibilidade de ser uma mulher escrevendo esse mang\u00e1 sh\u014dnen gerou uma s\u00e9rie de <a href=\"https:\/\/animesweet.com\/anime\/demon-slayer-when-fans-discovered-that-koyoharu-gotouge-is-a-woman\/\">coment\u00e1rios negativos<\/a> por parte dos leitores japoneses. Por conta disso, \u00e9 poss\u00edvel especular que existam muitas mulheres produzindo t\u00edtulos sem sabermos quem realmente s\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Embora os mangak\u00e1s sejam os respons\u00e1veis tanto pela arte quanto pelo desenvolvimento da narrativa, outros fatores influenciam, e por vezes, limitam o processo criativo da produ\u00e7\u00e3o de mang\u00e1s, sendo o principal deles a rela\u00e7\u00e3o dos editores com as artistas. A ind\u00fastria atrai muitos jovens que amam mang\u00e1 e desejam fazer parte de sua produ\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma ocupa\u00e7\u00e3o bem paga e apenas alguns deles t\u00eam sucesso como artistas. Artistas profissionais geralmente criam mang\u00e1s junto com seus editores, a maioria dos quais s\u00e3o homens contratados por editoras e que participam do processo criativo. Eles t\u00eam o poder de exercer influ\u00eancia nas decis\u00f5es sobre o conte\u00fado, dando ideias sobre um enredo, personagens e hist\u00f3rias. Hiromu Arakawa em entrevistas afirmou querer a introdu\u00e7\u00e3o de mais personagens femininas, algo que foi barrado pelos editores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um passo qualitativo nesse sentido seria a inser\u00e7\u00e3o de mulheres como editoras, contudo \u00e9 uma \u00e1rea ainda dif\u00edcil de adentrar. Nesse sentido, em 2019 a Shueisha, editora da revista Weekly Sh\u014dnen Jump, gerou controv\u00e9rsia sobre o assunto. Em visita a uma universidade, uma estudante perguntou se mulheres podiam ser editoras na revista, ao que responderam que seus editores deveriam <a href=\"https:\/\/www.animenewsnetwork.com\/interest\/2019-11-08\/shueisha-says-female-jump-editors-need-to-understand-the-hearts-of-boys\/.152995\">\u201centender o cora\u00e7\u00e3o dos garotos<\/a>\u201d. Isso gerou uma s\u00e9rie de debates sobre a inser\u00e7\u00e3o feminina na ind\u00fastria de mang\u00e1s, principalmente nos mang\u00e1s sh\u014dnen, j\u00e1 que o mesmo cen\u00e1rio n\u00e3o se repete na publica\u00e7\u00e3o de mang\u00e1s sh\u014djo, que tem a maioria de seus editores do sexo masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No entanto, apesar dessas dificuldades, essas mulheres demonstram que \u00e9 poss\u00edvel escrever boas hist\u00f3rias, com personagens femininos e masculinos complexos em mang\u00e1s sh\u014dnen e ainda terem sucesso comercial. Al\u00e9m disso, as obras mostram o potencial dos textos em moldar e contestar ideias sobre representa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero dentro de uma categoria que ainda \u00e9 dominado pela masculinidade ao mesmo tempo que atrai um p\u00fablico amplo e diversificado. Leitores de todos os g\u00eaneros podem encontrar apelo em mang\u00e1s direcionados ao p\u00fablico masculino que contam com personagens femininas bem escritas e personagens masculinos que fogem de uma masculinidade t\u00f3xica. Tudo isso mostra que, por mais que o marketing do mang\u00e1 tenda a ser baseado no g\u00eanero, o talento para contar diferentes tipos de hist\u00f3rias n\u00e3o conhece tais fronteiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BEA, Marion. <strong>Demolishing the Demographic Double Standard<\/strong>: Why more manga \u201cfor boys\u201d need to treat their girls better. 2018. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.animefeminist.com\/discourse-demolishing-the-demographic-double-standard-why-more-manga-for-boys-need-to-treat-their-girls-better\/\">https:\/\/www.animefeminist.com\/discourse-demolishing-the-demographic-double-standard-why-more-manga-for-boys-need-to-treat-their-girls-better\/<\/a>. Acesso em: 18 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>BEA, Marion. <strong>Gender Inequity in My Hero Academia<\/strong>. 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.animefeminist.com\/feature-gender-inequity-hero-academia\/. Acesso em: 18 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>DAUGHERTY, Sarah. <strong>In the Name of the Moon<\/strong>: Female Mangaka and the Manga Industry. 2020. Chancellor\u2019s Honors Program Projects. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/trace.tennessee.edu\/utk_chanhonoproj\/2359\">https:\/\/trace.tennessee.edu\/utk_chanhonoproj\/2359<\/a>. Acesso em: 16 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DEMON Slayer: When fans discovered that Koyoharu Gotouge is a woman<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/animesweet.com\/anime\/demon-slayer-when-fans-discovered-that-koyoharu-gotouge-is-a-woman\/. Acesso em: 20 dez. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>FLIS, Daniel. <strong>Straddling the Line<\/strong>: how female authors are pushing the boundaries of gender representation in Japanese shonen manga. New Voices In Japanese Studies, [S.L.], v. 10, p. 76-97, 3 jul. 2018. The Japan Foundation, Sydney. <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.21159\/nvjs.10.04\">http:\/\/dx.doi.org\/10.21159\/nvjs.10.04<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>GIRINANDINI, Singh. <strong>The art of the female gaze\u2026what is it?<\/strong> 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.stirworld.com\/think-opinions-the-art-of-the-female-gaze-what-is-it. Acesso em: 02 jan. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>HEMMANN, Kathryn. <strong>The Maiden and the Witch<\/strong>: Clamp\u2019s subversion of female character tropes. Manga Cultures And The Female Gaze, [S.L.], p. 47-75, 2020. Springer International Publishing. <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1007\/978-3-030-18095-9_3\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1007\/978-3-030-18095-9_3<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>MORRISSY, Kim. <strong>Shueisha Says Female Jump Editors Need to &#8216;Understand the Hearts of Boys&#8217;<\/strong>. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.animenewsnetwork.com\/interest\/2019-11-08\/shueisha-says-female-jump-editors-need-to-understand-the-hearts-of-boys\/.152995. Acesso em: 20 dez. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>PARKER-DALTON, Jacob. <strong>LINE Research Highlights Shift in Weekly Shonen Jump Readership<\/strong>. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.otaquest.com\/line-research-shift-weekly-shonen-jump-readership\/. Acesso em: 02 jan. 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>SUGISAKI, Hikari. Gender Roles in Japanese Manga: ethical considerations for mangaka. <strong>Seminar Paper. <\/strong>[S.L.], p. 1-19. dez. 2016. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pages.stolaf.edu\/wp-content\/uploads\/sites\/947\/2017\/02\/Gender-Roles-in-Japanese-Manga-Ethical-Considerations-for-Mangaka.pdf. Acesso em: 16 out. 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Emily Rafany (Graduada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela UFGD) emily.rafany14@gmail.com Os mang\u00e1s e seus criadores, os mangak\u00e1s, formam uma importante parte da cultura japonesa. 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