{"id":1268,"date":"2018-02-27T16:54:17","date_gmt":"2018-02-27T16:54:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ceasiaufpe.wordpress.com\/?p=1268"},"modified":"2021-09-21T13:35:04","modified_gmt":"2021-09-21T16:35:04","slug":"nota-falecimento-do-prof-theotonio-do-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceasiaufpe.com.br\/?p=1268","title":{"rendered":"NOTA | Falecimento do Prof. Theot\u00f4nio do Santos."},"content":{"rendered":"<p>O Instituto de Estudos da \u00c1sia (IE\u00c1SIA) lamenta profundamente o falecimento do professor e pesquisador Theot\u00f4nio dos Santos. Um dos principais formuladores da Teoria da Depend\u00eancia e grande expoente na Teoria do Sistema-Mundo, Theot\u00f4nio do Santos foi uma das mentes mais brilhantes que o Brasil desenvolveu.<\/p>\n<p>Deixamos um uma entrevista que o professor Theot\u00f4nio deu sobre a Teoria da Depend\u00eancia.<\/p>\n<h3 class=\"m_-358083669447696526gmail-post-title m_-358083669447696526entry-title\">A atualidade da teoria da depend\u00eancia<\/h3>\n<div id=\"m_-358083669447696526gmail-post-body-3151975149342073572\" class=\"m_-358083669447696526gmail-post-body m_-358083669447696526entry-content\"><strong><a href=\"http:\/\/www.monitormercantil.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.monitormercantil.com.br<\/a>&nbsp;&#8211; 20\/11\/2000 &#8211; 16:11&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Nunca fomos externos ao capitalismo e cumprimos um papel importante na evolu\u00e7\u00e3o do sistema de com\u00e9rcio atual&#8221;. A frase \u00e9 de Teoth\u00f4nio dos Santos, autor da Teoria da Depend\u00eancia, formulada em meados da d\u00e9cada de 60, que v\u00ea a expans\u00e3o da economia capitalista mundial como geradora, simultaneamente, de desenvolvimento e subdesenvolvimento e que rompeu com a vis\u00e3o dominante no p\u00f3s-guerra, segundo a qual as economias das antigas col\u00f4nias, subdesenvolvidas, se encontrariam em est\u00e1gio feudal ou pr\u00e9-capitalista, necessitando passar por uma revolu\u00e7\u00e3o industrial para chegarem \u00e0 &#8220;modernidade&#8221;.<\/p>\n<p>A Teoria da Depend\u00eancia, que tem em Theot\u00f4nio dos Santos, do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL, um dos principais pensadores, analisa os pa\u00edses hegem\u00f4nicos (desenvolvidos) como captadores dos excedentes econ\u00f4micos das na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas (subdesenvolvidas). Essa teoria conta, inclusive, com o soci\u00f3logo Fernando Henrique entre seus mais destacados adeptos. No entanto, no livro Teoria da Depend\u00eancia &#8211; Balan\u00e7o e Perspectivas, que Theot\u00f4nio dos Santos acaba de lan\u00e7ar pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, o autor, ao tempo em que faz um balan\u00e7o e uma atualiza\u00e7\u00e3o do tema, deixa claras suas profundas diverg\u00eancias com as conclus\u00f5es de FH.<\/p>\n<p><strong>MONITOR MERCANTIL &#8211;&nbsp;<\/strong>Como surgiu a Teoria da Depend\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>Theot\u00f4nio dos Santos &#8211;<\/strong>&nbsp;A teoria foi formulada nos anos 60, quando o golpe de Estado no Brasil chamou a aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es fundamentais. As aspira\u00e7\u00f5es por um desenvolvimento nacional independente como conseq\u00fc\u00eancia do desenvolvimento industrial da regi\u00e3o latino-americana, que vinha se industrializando da d\u00e9cada de 30 para c\u00e1, foram frustadas devido ao aumento da depend\u00eancia da regi\u00e3o para com o capital estrangeiro. Os empres\u00e1rios nacionais descobriram que n\u00e3o poderiam liderar o processo de industrializa\u00e7\u00e3o, que estava j\u00e1 dominado pelas empresas multinacionais, que n\u00e3o transferiam tecnologia sen\u00e3o sob a forma do investimento direto que as permitia controlar a produ\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses onde investiam. Isso foi se intensificando em pa\u00edses como o Brasil, que estavam na ponta do desenvolvimento e obrigou a uma revis\u00e3o na perspectiva do p\u00f3s-guerra, sobretudo, com o ingresso de novas na\u00e7\u00f5es independentes. Por outro lado, a economia neocl\u00e1ssica pregava que cada economia do mundo se especializasse num tipo de produ\u00e7\u00e3o para que pudesse obter o m\u00e1ximo de vantagem.<\/p>\n<p>MM &#8211; Esta tese continua atual, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>TS &#8211; Voltou porque todo esse contexto de depend\u00eancia aumentou muito. Nos anos 50 pelo menos havia uma aspira\u00e7\u00e3o nacional democr\u00e1tica. O golpe de Estado no Brasil mostrou que a classe dominante estava disposta a chegar a uma condi\u00e7\u00e3o de s\u00f3cia menor do capital internacional, ao inv\u00e9s de pretender uma autonomia e uma proposta pr\u00f3pria. Um segundo aspecto ligado ao golpe de 64 \u00e9 que o caminho para esse ajuste com o capital internacional parecia ser fundamentado em uma f\u00f3rmula ditatorial, de tend\u00eancia fascista. Come\u00e7amos a ver que o golpe n\u00e3o era de setores atrasados da economia, como latifundi\u00e1rios. Eram setores da ind\u00fastria avan\u00e7ada, orientados pelo capital internacional, o que indicava que a forma de viol\u00eancia organizada e de terror n\u00e3o vinha de setores que estavam perdendo poder. Isso tamb\u00e9m ia contra a no\u00e7\u00e3o de que desenvolvimento deveria gerar democracia. Houve um refinamento e uma institucionaliza\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o fora do comum, tanto internamente como externamente.<\/p>\n<p>MM &#8211; As antigas col\u00f4nias ainda eram vistas como pr\u00e9-capitalistas, na \u00e9poca?<\/p>\n<p>TS &#8211; A id\u00e9ia \u00e9 de que os pa\u00edses subdesenvolvidos ainda n\u00e3o teriam ingressado no capitalismo e que teriam que passar por todas as etapas de desenvolvimento que os demais. Os fatos, desde a d\u00e9cada de 40, j\u00e1 estavam demonstrando, no entanto, que os pa\u00edses do Terceiro Mundo teriam que passar por f\u00f3rmulas pol\u00edticas novas para atingirem a moderniza\u00e7\u00e3o. A maior parte das economias do Terceiro Mundo teve papel muito importante no desenvolvimento mundial, como o caso do Brasil. Pensar essas economias como feudais e exteriores ao capitalismo era de uma ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica colossal. Contudo, era a id\u00e9ia dominante. Pensar que essas economias poderiam refazer o caminho do capitalismo tamb\u00e9m era uma id\u00e9ia totalmente falsa. Ent\u00e3o, se come\u00e7a a buscar um caminho alternativo. No caso da revolu\u00e7\u00e3o cubana, por exemplo, o objetivo era a democracia, mas o pa\u00eds foi obrigado a buscar novas formas econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas que apontavam na dire\u00e7\u00e3o do socialismo, o que era um fato novo na Am\u00e9rica Latina. Era preciso adaptar-se em primeiro lugar \u00e0 resist\u00eancia que o capital internacional oferecia e dar solu\u00e7\u00f5es abrangentes para sustentar as transforma\u00e7\u00f5es sem contar com as lideran\u00e7as empresariais. O grande salto da Teoria da Depend\u00eancia foi ver esse conjunto de transforma\u00e7\u00f5es como parte da economia mundial, num enfoque global.<\/p>\n<p>MM &#8211; O que mudou hoje e que o levou a atualizar a teoria?<\/p>\n<p>TS &#8211; A evolu\u00e7\u00e3o que houve foi a amplia\u00e7\u00e3o para uma an\u00e1lise de uma teoria do sistema mundial, que explique inclusive o processo de globaliza\u00e7\u00e3o e a tend\u00eancia da economia capitalista de cada vez mais condensar o seu espa\u00e7o numa forma mais densa de integra\u00e7\u00e3o do sistema capitalista mundial. A articula\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias partes da economia mundial avan\u00e7ou muito mais, apesar de outros fatores terem se desarticulado. Isso exigiu mais clareza sobre a an\u00e1lise da economia mundial, desenvolvida sobretudo na d\u00e9cada de 70, em conjunto com colegas norte-americanos, europeus, etc., que assumiram nosso ponto de vista e, como desdobramento da Teoria da Depend\u00eancia, passaram a trabalhar a id\u00e9ia de um sistema econ\u00f4mico mundial. Infelizmente, no Brasil h\u00e1 um desconhecimento muito grande de toda essa evolu\u00e7\u00e3o da teoria social contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>MM &#8211; No livro, o senhor destaca 18 pa\u00edses, entre eles o Brasil, que seriam fundamentais at\u00e9 para a manuten\u00e7\u00e3o da paz. Qual seria essa fun\u00e7\u00e3o no sistema mundial?<\/p>\n<p>TS &#8211; O sistema mundial, do ponto de vista pol\u00edtico, n\u00e3o resolveu bem a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o dos centros de poder mais importantes do mundo na estrutura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica mundial. Do ponto de vista econ\u00f4mico, o G-7 reuniu as sete grandes pot\u00eancias, tendo que integrar a R\u00fassia depois. Mas deixou de lado China, \u00cdndia e Brasil, que s\u00e3o pot\u00eancias extremamente significativas. Se n\u00f3s medirmos a renda nacional do ponto de vista do poder de compra, que \u00e9 a nova metodologia do Banco Mundial, vamos constatar que a maior renda nacional \u00e9 realmente os EUA, com US$ 8 trilh\u00f5es, mas logo em seguida vem a China,&nbsp;<a href=\"https:\/\/maps.google.com\/?q=com+US$+4,5&amp;entry=gmail&amp;source=g\">com US$ 4,5<\/a>&nbsp;trilh\u00f5es. Depois v\u00eam Alemanha, Jap\u00e3o e \u00cdndia. O Brasil seguramente est\u00e1 entre as 10 grandes pot\u00eancias. Ent\u00e3o o sistema de decis\u00e3o econ\u00f4mica de integra\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas exclui algumas das pot\u00eancias mais importantes do mundo. O Conselho de Seguran\u00e7a da ONU exclui Alemanha e Jap\u00e3o, pa\u00edses derrotados na Segunda Guerra, inclui a China, mas n\u00e3o inclui a \u00cdndia, que \u00e9 uma pot\u00eancia militar muito importante como tamb\u00e9m Ir\u00e3 ou Paquist\u00e3o, que t\u00eam um peso militar enorme. Tudo isso sem falar nos pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o pot\u00eancias. Estes est\u00e3o exclu\u00eddos totalmente, j\u00e1 que a Assembl\u00e9ia Geral da ONU n\u00e3o consegue fazer valer suas decis\u00f5es. O problema se agrava com o fato de que as empresas multinacionais atuam hoje no mundo inteiro com estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o micro e macro sem que haja nenhum controle global sobre elas.<\/p>\n<p>MM &#8211; Neste contexto, qual o papel dos acordos regionais tipo Mercosul e Alca?<\/p>\n<p>TS &#8211; Eles consolidam uma realidade geopol\u00edtica, apesar de que o imperialismo tende a p\u00f4r cada uma das economias nacionais muito mais em rela\u00e7\u00e3o com o centro do que com seus vizinhos, numa irracionalidade econ\u00f4mica muito grande. Na medida em que nos \u00faltimos 20 anos tivemos uma crise muito s\u00e9ria, essas for\u00e7as regionais foram aumentando sua presen\u00e7a. No caso Europeu, destru\u00eddo o sistema colonial, a Europa teve de voltar-se para dentro de si mesma e contrabalan\u00e7ar a influ\u00eancia norte-americana e a expans\u00e3o russa. Quanto \u00e0 Am\u00e9rica Latina, os EUA sempre impediram qualquer pol\u00edtica at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 80, mas n\u00e3o puderam impedir a integra\u00e7\u00e3o Ibero-Americana, que, apoiada na integra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, inclu\u00eda Portugal e Espanha. A Am\u00e9rica Latina precisou criar condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para que pudesse se integrar e o Mercosul se desenvolveu com mais facilidade porque Brasil e Argentina pela primeira vez puderam entrar numa pol\u00edtica de coopera\u00e7\u00e3o em meados da d\u00e9cada de 80, com a redemocratiza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Sem maiores investimentos, passamos de 6% para 22% de com\u00e9rcio com a Am\u00e9rica Latina. A Alca \u00e9 uma resposta a isso, procurando manter a regi\u00e3o sob comando norte-americano, mas de qualquer maneira ela j\u00e1 reconhece o desenvolvimento de movimentos sub-regionais.<\/p>\n<p>MM &#8211; A Teoria da Depend\u00eancia \u00e9 uma express\u00e3o do pensamento aut\u00f4nomo latino-americano. Hoje esse grau de autonomia diminuiu?<\/p>\n<p>TS &#8211; Houve um retrocesso no pensamento latino-americano. T\u00ednhamos toda uma gera\u00e7\u00e3o de economistas formada nos EUA atrav\u00e9s de v\u00e1rios mecanismos. No princ\u00edpio n\u00e3o era t\u00e3o grave porque o grupo neoliberal n\u00e3o tinha um controle t\u00e3o grande sobre as universidades americanas. O pensamento liberal sempre foi associado ao fascismo, que \u00e9 o regime de terror do grande capital, e todo esse movimento ressurgiu a partir de Pinochet, no Chile. Hitler, Mussolini, Franco ou Salazar chegaram ao poder em situa\u00e7\u00f5es inflacion\u00e1rias fortes, impondo pol\u00edticas de inspira\u00e7\u00e3o liberal, monetarista, com v\u00e1rias formas de maquiar uma forte interven\u00e7\u00e3o estatal. Um contexto de pol\u00edtica anti-estatal que termina fortalecendo o Estado, como o golpe de 64, com a concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital para desenvolver um capitalismo de Estado, fundado no capital financeiro. A Am\u00e9rica Latina precisou dessas solu\u00e7\u00f5es especialmente na d\u00e9cada de 60. Pouca gente compreende o conte\u00fado global do fen\u00f4meno do fascismo. Se olharmos a Europa dos anos 40 veremos que era toda fascista. Houve tamb\u00e9m uma experi\u00eancia asi\u00e1tica, liderada pelo Jap\u00e3o. Fora o caso alem\u00e3o, a repress\u00e3o do Estado no fascismo n\u00e3o precisou de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria para se sustentar. No pensamento neoliberal, o Estado deixa de entrar na parte econ\u00f4mica mas passa a ser absolutamente necess\u00e1rio para regular a for\u00e7a de trabalho ou a oferta de moeda. Quer um bom exemplo disto? O grupo que fez o plano Real foi quem traduziu, com introdu\u00e7\u00e3o de Gustavo Franco, o livro de mem\u00f3rias do ministro da economia de Hitler e o apresenta como inspirador do plano Real.<\/p>\n<p>MM &#8211; Em seu livro, o senhor surpreende ao dizer que o presidente Fernando Henrique n\u00e3o renegou o que tinha escrito, como ele pr\u00f3prio afirmou. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>TS &#8211; Desde 1973, Fernando Henrique come\u00e7a a romper com as correntes da Teoria da Depend\u00eancia que procuravam caracterizar a depend\u00eancia como um limite para o desenvolvimento integral, capaz de corresponder \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o, para demonstrar que era poss\u00edvel o desenvolvimento dependente. N\u00f3s concord\u00e1vamos que na depend\u00eancia h\u00e1 um desenvolvimento, mas ele \u00e9 extremamente concentrador e excludente, que n\u00e3o resolve os problemas da popula\u00e7\u00e3o, pois cria mecanismos de exclus\u00e3o extremamente violentos, que inspira f\u00f3rmulas fascistas. Fernando Henrique procurou mostrar que n\u00e3o. De fato, na d\u00e9cada de 70 o imperialismo americano entrou em choque com os regimes militares que ele mesmo criou na d\u00e9cada de 60, pois esses regimes estavam inspirando propostas nacionalistas de direita que n\u00e3o interessavam para a expans\u00e3o do sistema mundial, representavam um problema para a globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MM &#8211; Mas, por conta disto, n\u00e3o houve um movimento de redemocratiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>TS &#8211; Nesse sentido, a an\u00e1lise de Fernando Henrique parecia correta. Acontece que o que se chamava de democratiza\u00e7\u00e3o nesse processo \u00e9 uma coisa muito limitada. O que se tentou criar realmente foram regimes muito controlados. Fernando Henrique n\u00e3o viu que n\u00e3o h\u00e1 democracia sem soberania nacional, sem que o Estado tenha meios para decidir sobre a pr\u00f3pria vida nacional. Desde 79, em artigo contra Ruy Mauro Marini (cientista social), cuja resposta n\u00e3o foi divulgada pela imprensa brasileira, Fernando Henrique j\u00e1 tinha manifestado uma tend\u00eancia pr\u00f3 manuten\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia. A resposta de Marini dizia: &#8220;Fernando Henrique Cardoso ou Porque eu amo a minha burguesia&#8221;. O texto mostrava que Fernando Henrique estava reivindicando uma condi\u00e7\u00e3o subordinada das burguesias latino-americanas e do Estado como uma f\u00f3rmula de conviv\u00eancia com a economia mundial. Na verdade ele j\u00e1 estava nessa posi\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. N\u00e3o foi uma coisa de \u00faltima hora e ele chegou a formar toda uma gera\u00e7\u00e3o de pensadores econ\u00f4micos e sociais com essa linha. Ele conseguiu, segundo declarou, &#8220;trancar uma porta da juventude brasileira para os pensamentos radicais&#8221;. Conseguiu impedir realmente que as outras correntes fossem estudadas. Suas posi\u00e7\u00f5es conduziam \u00e0 sua postura atual, que \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de concilia\u00e7\u00e3o com os setores mais conservadores e com a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, sem nenhuma pretens\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o social profunda, sem nenhuma reforma estrutural.<\/p>\n<p>MM &#8211; Na pr\u00e1tica, o que isto significou?<\/p>\n<p>TS &#8211; Simplesmente um ajuste \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, para que ela flua mais e possa haver maior dinamismo. Mas nem isso ele alcan\u00e7ou porque na verdade essa abertura n\u00e3o gerou dinamismo econ\u00f4mico como em outras partes do mundo, como no Chile. Mas l\u00e1 tinha havido a reforma agr\u00e1ria no governo Allende e o golpe de Estado n\u00e3o p\u00f4de recuar. No Brasil, o golpe impediu a reforma agr\u00e1ria. Ent\u00e3o n\u00e3o se gerou uma burguesia agr\u00e1ria din\u00e2mica como a classe m\u00e9dia chilena que assumiu o setor agr\u00e1rio. O Chile tamb\u00e9m estatizou as reservas de cobre, mais de 60% da exporta\u00e7\u00e3o chilena. Em 1982, a crise financeira no Chile era tal que mesmo o regime militar teve que estatizar o sistema financeiro. Aqui o governo est\u00e1 tentanto passar um crescimento de 3,5% como uma coisa fant\u00e1stica, depois de passar dois anos estagnado. \u00c9 uma coisa p\u00edfia.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Instituto de Estudos da \u00c1sia (IE\u00c1SIA) lamenta profundamente o falecimento do professor e pesquisador Theot\u00f4nio dos Santos. 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